Em 1999, o grupo de rock australiano silverchair lançou seu terceiro álbum, Neon Ballroom. Sucesso de público e crítica, o disco confirmava o amadurecimento de seus integrantes, um trio formado por Daniel Johns (vocal e guitarra), Chris Joannou (baixo) e Ben Gillies (bateria), que no início da carreira era chamados de maneira jocosa de "Nirvana de pijamas". O quarto último single escolhido por eles, "Emotion Sickness", é o ponto de partida para esse texto.
Essa canção conta com a participação do pianista australiano David Helfgott, cuja história virou uma ótima cinebiografia. Dirigido por Scott Hicks e lançado em 1996, o filmes Shine-Brilhante é estrelado por Noah Taylor (na primeira fase) e Geoffrey Rush (na segunda). E lá vamos nós com minhas histórias de "uma coisa leva a outra" ( o título desse texto poderia ser "De silverchair a David Helfgott"). Eu não me contento com a superfície, quanto mais eu puder saber sobre as influências das minhas bandas favoritas, filmes e livros, mais satisfeita eu fico. É um prazer que eu guardo só pra mim ( e agora divido com vocês). Há certas pessoas que não vêem graça nas coisas que eu gosto, assim eu fico denominada "a diferente". Eles preferem aquele entretenimento drive thru: viu, pegou,experimentou e esqueceu. Não entra na minha cabeça tal atitude. Cada experiência fica guardada na minha memória afetiva e nunca perco a oportunidade de rever,rever,rever, over and over again. Olha lá eu mudando os rumos do texto. Voltemos a proposta inicial.
Apesar de eu conhecer a história da colaboração de David Helfgott com o silverchair há 14 anos, eu só fui assistir Shine domingo passado!!! Sim, aqui em casa há o dvd do filme e o mais curioso: ele não me pertence! Ele é da minha irmã mais velha, a Márcia. Questionei o motivo dela tê-lo comprado e sua resposta foi de que a doutora Isabel (a psicóloga dela) sugeriu esse filme para a terapia. Lendo a sinopse do filme dá para entender a escolha: a trama joga os holofotes na conturbada relação entre pai e filho. O pai é um opressor, um tanto quanto manipulador e que projetava no filho tudo aquilo que ele queria ser mas não conseguiu. Considerava-se um homem forte, contrastando com a aparência frágil e mirradinha do seu filho mais velho. Ele encarregava-se de ensinar David a tocar piano desde muito cedo,tornando o menino um prodígio. Ele rompeu aquela barreira de pai incentivador para tornar-se um verdadeiro controlador.
Confesso que ao ler o resumo do filme na contra-capa do dvd eu imaginei um filme com cenas fortes, no sentido de serem violentas, mas não é bem assim. O diretor foi bem sutil, usando mais da violência psicológica do que violência física, além de gestos e expressões dos atores falarem mais do que qualquer diálogo. São atuações sucintas, pois cada ator sabia o momento certo de brilhar. E claro, como o protagonista toca piano, a trilha sonora é puro deleite.
Vale ressaltar que Geoffrey Rush não usou nenhum dublê, ele mesmo tocou em cena. Mais do que merecido o prêmio de Oscar de melhor ator pelo papel. Se vocês não estão ligando o nome a pessoa, Geoffrey faz o Capitão Barbossa na franquia "Piratas do Caribe" e também está "O Discurso do Rei". Outra coisa boa foi eu ter redescoberto o Noah Taylor. Enquanto eu assistia ao filme, ficava esse mantra na minha cabeça, "eu já vi esse rosto,já vi esse rosto..."e záz, era verdade! Ele foi o pai do Charlie em "A Fantástica Fábrica de Chocolate" do Tim Burton, participou de "Quase Famosos" (outro filme típico da Shil). O rosto dele é de uma fragilidade impressionante, não aparentando ter 27 anos (na época em que o filme foi lançado). Ah, esqueci de mencionar: David é louco. No sentindo literal mesmo, pois a pressão do pai e sua obsessão pelo piano o enlouqueceu. No filme não fica muito bem claro de qual doença ele sofria, mas posso garantir que o Noah fez de um modo muito competente, sem carregar nas tintas. Nada de estilização da loucura. O vídeo acima deste parágrafo contem minha cena preferida, definitivamente mergulhei no filme durante sua exibição.
E vejam só como o mundo é realmente pequeno. O Noah aparece em clipes do Nick Cave e do Blur, artistas que não saem do meu playlist. Definitivamente esse negócio de uma "uma coisa leve a outra" vai me enlouquecer.
vou confessar que já ensaiei os passinhos dessa dança, em frente ao espelho
Galeria de fotos:
Esse é o David, simpático não?
Geoffrey em cena
eu acho essa capa tão simples, mas representa tão bem a sensação de liberdade!
Como muitos já devem ter percebido, eu amo o Red Hot Chili Peppers! Se ainda não perceberam, então vocês só curtiram meus textos sem prestar muita atenção, rs. Enfim, eu posso afirmar que entre o final dos anos 90 e até a metade dos anos 2000 os Chili Peppers alcançaram seu segundo auge em popularidade, pois tanto a crítica especializada em música quanto os fãs aprovaram os álbuns lançados naquele período, Californication e By the Way. A maré estava tão boa para o grupo californiano que, não satisfeitos em fazer música boa, resolveram caprichar nos videoclipes. Três deles chamam muito a minha atenção: Otherside, Californication e By the Way. Todos foram dirigidos pela dupla Jonathan Dayton e Valerie Faris (que depois dirigiram o filme Pequena Miss Sunshine). E vale lembrar que esses clipes batiam o ponto em canais ou programas voltados ao videoclipe.
Otherside é totalmente inspirado no cinema expressionista alemão, semelhante ao estilo gótico do filme O Cabinete do Doutor Caligari. Além disso, ele apresenta elementos de outras vanguardas européias, como o cubismo e o surrealismo. Acho super digno e criativo os "instrumentos" dos integrantes terem virados objetos de cena: a guitarra do John virou uma simples corda, Flea equilibra-se em fios de um poste e o Chad tem como bateria um relógio. Bom, eu acredito que o enredo do clipe lembre um pouco a trajetória do John, um rapaz que é levado para um hospital ou clínica e lá, após um período de abstinência ele começa a ter alucinações. Se bem que há uma cena em que o rapaz é sedado e por isso começa a ter alucinações. Huumm, então posso acreditar que ele esteja em um manicômio? Como já citei, os cenários não são meros objetos de decoração, eles ganham vida, como a estrada virando um macabro prédio em questões de segundos.
(Uma coisa que eu ODIAVA: a galerinha cantando "Hello, hello" em vez de "how long, how long" no refrão!)
O clipe seguinte veio com uma pegada totalmente diferente, toda tecnológica. Californication era um game que eu gostaria muito que existisse. Cada integrante tinha o seu avatar no jogo e cumpria missões pela Califórnia. É um clipe cheio de detalhes, ele é daqueles que devem ser pausados a cada segundo e notar as referências (só no estúdio de Hollywood vemos Leonardo da Vinci, bastidores de um soft porn, carro de James Bond, etc). A música é uma crítica um tanto quanto melancólica para a Califórnia, com seus excessos e extravagâncias, influência de todo um mercado fonográfico e cinematográfico. Eu odiava quando "pseudos fãs" achavam que era uma canção de amor, só por ela ser uma canção lenta, tipo balada. Aff...
Por fim, a trinca fecha com By the Way, primeira faixa do álbum homônimo. Eu não acho assim o supra sumo dos videoclipes, mas me chamou a atenção que os diretores novamente foram beber na fonte cinematográfica, mas não precisaram pegar uma referência antiga. O clipe é inspirado numa sequência do filme Amores Brutos (Amores Perros), do cineasta Alejandro Gonzáles Iñarritu. Eu só soube disso quando o Flea explicou no making of exibido pela MTV.
Bom, todos esses clipes são bacanas e é legal perceber que o artista não se preocupou em apenas vender a imagem da banda e sua música de trabalho. Aqui são exemplos bem sucedidos de boas ideias e, porque não, homenagens a tantos outros artistas que de uma forma ou outra inspiraram o grupo e/ou os diretores.
Agora eu tenho uma história curiosa sobre o clipe que segue abaixo:
Vou fazer uma pequeno "recaptula": comecei a ser fã do RHCP em 1998 e depois do lançamento do Californication eu sofri uma overdose pepperística! Mas lembrem-se, toda minha fonte de informação era a MTV e a 89-A rádio rock. Não tínhamos ainda o Google e Youtube para sanar nossa sede de "sabedoria de boteco" e ver clipes a qualquer hora do dia. Tudo o que eu sabia a respeito dessa música era que ela fazia parte de trilha sonora de um filme, "The Coneheads". E não é que tem mesmo um cabeça de cone no clipe, sendo uma espécie de bala-humana. Bom, nem mesmo procurando em sebos as edições mais antigas da SET (revista sobre cinema) eu descobri o nome desse filme em português. Não passava no Supercine,Tela de Sucessos ou Corujão...Caramba, que raios de filme é esse? Porque, para um videoclipe tão lindo como esse, o filme deveria ser tão bom quanto. Soul to Squeeze é meu clipe predileto, junto com Otherside. Ambos tem uma pegada filme europeu - ah, sei lá, sempre achei a fotografia desse filme linda. Parece uma película antiga, com elementos cênicos perfeitos, tornando Anthony, Flea e o Chad verdadeiros integrantes de uma trupe de circo. É tudo muito crível, esse circo itinerante, os bastidores do espetáculo, aquela ideia de que todos que ali trabalhavam formavam uma grande família (incluindo os animais). Que filme maravilhoso ele seria! Eu até já tinha criado um filme à parte, me baseando nos elementos do clipe: o rapaz cabeça de cone nasceu com essa anomalia, fora abandonado pelos pais e acaba sendo adotado por um velho palhaço. Ele tenta não expô-lo para não ser ridicularizado e o menininho tenta se adaptar a esse mundo, onde ele é "o diferente'. O velho palhaço morre (não sei se de morte morrida ou morte matada) e o jovem cabeça de cone não tem opção: ou ele vai embora ou trabalha pro circo. Quem dá esse ultimato é o dono, o cara que fuma charuto lá no clipe. Ele no início faz o trabalho braçal, como recolher cocô de elefante mas depois o dono inescrupuloso o quer para estrelar o perigoso número do homem bala! Ele tem medo, é claro, mas para não parecer um fracote perante ao seu amor platônico, que é uma bailarina, ele cede a pressão. Bom, meu enredo termina por aí, depois nunca mais parei para incluir outras subtramas e personagens.
Mas eis que é chegado o momento: eu descobri algo sobre o filme original! Na verdade, descobri praticamente tudo. Engraçado que eu nunca joguei no Google ou no Youtube o nome "The Coneheads", talvez por estar satisfeita com minha história ou então por essa curiosidade ter ficado adormecida. Um belo dia, ouvindo a Kiss FM, meu mundo caiu. Na Kiss há o RockCine, um drops em que o locutor indica um filme e na sequência toca uma música que pertence a trilha sonora. Descobri que a versão em português do filme ficou "Cônicos e Cômicos" (como assim, Brasil?) e é uma comédia estrelada pelo Dan Aykroyd (ator de Meu primeiro amor, Caças Fantasmas, Chaplin, Irmãos Cara de Pau). Ele é um bom comediante, fez parte da turma do Saturday Night Live. Porém quando fui ver o trailer e sinopse de Cônicos e Cômicos eu tive vontade de chorar! Cadê o MEU CIRCO COM ARES EUROPEU?
Justo eu, que quero a verdade mais do que tudo, que sofro de um sincerocídio irremediável, nunca me senti TÃO FRUSTRADA ao ver a realidade! Bem-vinda à Matrix, Shil. A última vez em que eu me sentira tão mal foi quando descobri que a Vovó Mafalda era um homem! O seu filme europeu, vencedor dos maiores festivais (Oscar, Cannes, Toronto, Sundance, Globo de Ouro, SAG's Awards), se transformou numa comédia qualquer nota e bizarra. A verdade dói e tento negá-la. Esse filme nunca existiu, é um devaneio. Deixe-me encantar pelo meu circo europeu! ♫When I find my peace of mind I'm gonna keep it until the end of time♫
Estava arrumando minhas pastas, jogando fora velhas faturas, comprovantes de compras, anotações que não me ajudaram a lembrar de nada, telefones não identificados, recados não passados...enfim, dando uma geral no meu armário. Numa delas encontrei um livreto chamado O livro da vida. Ele contem apenas 64 páginas mas contem muita informação sobre Keith Haring e a AIDS. "Keith quem?", vocês devem estar se perguntando. Calma, eu também nunca tinha ouvido falar nesse nome e foi uma grata surpresa descobrí-lo. Infelizmente eu não tenho a data precisa, não sei se foi em 2010 ou em 2011 quando eu e a Gabby estávamos numa dessas nossas andanças pela Avenida Paulista e entramos no Conjunto Nacional, mais precisamente na galeria da Caixa Cultural. Exposição gratuita, sempre uma chance de deixar o estresse no lado de fora e poder descobrir novas formas de arte. Numa olhadinha rápida, as obras do Keith parecem aqueles desenhos feitos pelas crianças em idade pré-escolar, tipo um "homem-palito modernizado". Mas isso que torna os quadros mais legais: ele na verdade aborda temas sérios com uma linguagem leve e de fácil entendimento, tornando os desenhos atemporais. Na saída da galeria, nós pegamos o livreto que eu citei e conhecemos melhor o artista.
Ele nasceu em 4 de maior de 1958, desenvolveu uma paixão por desenhar ainda muito jovem,aprendendo as técnicas básicas de caricaturas e desenhos animados com seu pai, e com a cultura popular à sua volta, como Dr Seuss e Walt Disney. Entrou na Ivy School of Professional mas logo saiu, percebendo que tinha pouco interesse em virar um artista gráfico comercial. Mudou-se para Nova York e encontrou uma comunidade artística alternativa, que estava se desenvolvendo fora do eixo de galerias e museus, e sim nas ruas do centro, nos metrôs e espaços em clubes noturnos. Além de ter ficado impressionado pela inovação e energia desses artistas de sua época, Haring também obteve inspiração com o trabalho de Jean Dubuffet, Pierre Alechinsky, Willian Borroughs e com o manifesto The Art Spirit, de Robert Henri, que afirmava a independência fundamental do artista. Com essas influências, Haring pode direcionar seus próprios impulsos da juventude para um tipo de expressão gráfica excepcional baseada na supremacia da linha.
Entre 1980 e 1989 , ele atingiu reconhecimento internacional e participou de numerosas exposições solo e coletivas. Sua primeira exposição individual em Nova York foi feita no Westbeth Painters Space em 1981. Em abril de 1986, Haring inaugurou a Pop Shop, uma loja no Soho que vendia camisetas, brinquedos, pôsteres, bottons e ímãs de geladeira ilustrados com suas imagens. Ele considerou a loja como uma extensão do seu trabalho.
Haring foi diagnosticado com AIDS em 1988. Em 1989, ele criou a Keith Haring Foundation, com o encargo de fornecer fundos e imagens para organizações em prol da AIDS e programas para crianças, e de expandir o público dos trabalhos de Haring através de exposições, publicações e licenciamento de suas imagens. Haring recrutou suas figuras durante os últimos anos de sua vida para falar sobre sua própria doença e para aumentar o ativismo e consciência a respeito da AIDS.
Keith Haring morreu de complicações decorridas da AIDS aos 31 anos de idade, em 16 de fevereiro de 1990. Um memorial comemorativo foi realizado em 4 de maio, na Catedral St. John the Divine em Nova York, no qual mais de 1000 pessoas compareceram.
"No início, você fica completamente arrasado. Você passa por uma enorme, enorme tristeza. Quer dizer, mesmo que de alguma forma eu esperava que isso acontecesse, quando realmente acontece, você não está preparado. Então a primeira coisa que você faz é entrar em colapso. Fui até o East River no Lower East e apenas chorei, chorei e chorei."
"Viver com uma doença mortal lhe dá toda uma nova perspectiva sobre a vida. Não que eu precisasse de alguma ameaça de morte para apreciar a vida, porque sempre apreciei a vida. Sempre acreditei que a vida tem que ser vivida tão plenamente e tão intensamente como tem que ser - e lidar com o futuro como ele se apresenta"
"Vivo todos os dias como se fosse o último. Eu amo a vida"
Além dos apresentar a vida e obra de Keith Haring, O livro da vida contém um total de 10 depoimentos de homens e mulheres soropositivos (tanto homossexuais quanto heterossexuais, vale frisar). O último relato é de Valéria Piassa Polizzi, 39 anos escritora e jornalista. Esse nome eu já conhecia. Aliás, essa moça dividiu com milhares de leitores sua história. E aqui começa de fato a apresentação do livro que eu incorporei no desafio literário. Tudo que foi escrito antes foi apenas um aperitivo e acredito que esse será um dos maiores textos. Eu tô com a corda toda.
Valéria lançou em 1998 o livro Depois Daquela Viagem - Diário de bordo de uma jovem que aprendeu a viver com AIDS. Esse livro foi me apresentado graças a minha professora de Português, a Eliane. Eu estava na x série, no colégio Chafic, e ela aplicaria uma prova baseada nesse livro. Acredito que a Eliane tinha segundas ( e boas intenções) ao apresentar a história da Valéria Polizzi aos seus alunos. Querendo ou não, todos nós ainda éramos verdes, engatinhando na adolescência e por mais estranho que possa soar atualmente, na metade dos anos 90 o preconceito e falta de informações sobre AIDS/HIV ainda eram enormes. Para mim pelo menos, o relato da Val foi muito esclarecedor e ele deu chances para que ela fosse convidada a participar em diversos programas voltados para os adolescentes, como por exemplo o Programa Livre, do SBT, entrevistas para revistas como Capricho e Atrevida (onde depois ela virou colunista com o Papo de Garota). Durante todo esse período entre 2000 até o dia em que li o depoimento dela no Livro da vida, eu nunca mais tinha notícias da Valéria e assim que terminei de reler o Depois... eu fui localizá-la através do Oráculo de Delfos (vulgarmente conhecido como Google).
AIDS, palavrinha que ouvi pela primeira vez aos quatro anos, quando o Fantástico anunciava a morte do Cazuza. Apesar da minha pouca idade eu adorava cantar as músicas dele, mesmo não entendendo muito bem o que ele queria expressar através de suas letras. E lembro me bem de ter gostado do clipe de Ideologia, acho que era o clipe que mais passava durante a cobertura do falecimento do Cazuza.
Porém eu não compreendia bem a gravidade do que era uma pessoa pegar AIDS, algo que descobri com o passar dos anos e muito isso graças a Valéria Polizzi,
Sobre o livro
Eu tenho em mãos a 13ª edição e a capa está um tanto quanto amarelada e com meu toque
pessoal:eu tinha escrito RED HOT CHILI PEPPERS, rsrs... O bacana do texto é o tom informal que a Valéria usou para comunicar-se diretamente com os jovens, sem firulas, assim na lata mesmo. É como se ela estivesse entre uma roda de amigos para um bate-papo descontraído, troca de ideias, sacaram? Curiosamente o prólogo do livro tem o título "Muito Prazer", o que me levou a pensar não só no prazer em se apresentar...mas também nos outros prazeres, inclusive o sexual (justo ele que como o Cazuza muito bem cantou ♫O meu prazer agora é risco de vida♫). A Val nos explica que é uma soropositiva por pura e simplesmente não ter usado camisinha. Era a sua primeira vez. Simples assim, direto e reto - e com um toque de bom humor. Particularmente achei hilário ela ter questionado ao leitor se ao saber que ela era portadora do HIV, se ele tinha jogado o livro pra bem longe e se também foi desinfetar as mãos. Logo de cara ela nos faz perceber que o maior vilão a cerca da AIDS/ HIV é a falta de informação, que leva ao preconceito (e claro, sexo sem camisinha, nem preciso dizer que isso é um erro fatal). A forma de contágio do vírus era (ou ainda é) associada a relacionamentos homossexuais, prostitutas e drogados, o chamado grupo de risco. A Valéria mesmo afirma no livro que os médicos aqui no Brasil ficaram espantados por ela, uma moça tão jovem (16 anos na época), heterossexual ter contraído o vírus. Tudo começou após uma viagem num cruzeiro marítimo, em 1986, onde ela conheceu seu primeiro namorado. Ela ainda era virgem e após seis meses de namoro, eles transaram mas sem o uso do preservativo. Chegou a ser cômico o modo como ela e suas amigas pensavam e o que conheciam sobre o sexo. Como, por exemplo, deduzir que sexo oral era quando a pessoa ficava gemendo durante a transa.
A verdade é que nossos pais ou qualquer parente não estão preparados par falar com a gente sobre sexo e tudo o que está relacionado a ele. Não sei se é culpa da formação católica, onde sentir prazer ou pensar em transar é pecado ou ainda, pensam que é um ato exclusivo para procriação de outra vida. Só sei que até hoje há um baita constrangimento dos pais ao conversar com os filhos. Eu mesma, quase não conversava com minha a respeito, suspeitando que ela não me compreenderia ou então viria com um discurso muito retrógrado. As pessoas tem vergonha até em falar o nome correto dos órgãos genitais e ficam botando apelidinhos bocós. Peru, piu-piu, perereca, piriquita?!!! Poxa, é pênis e vagina, tem algo de errado falar com uma criança sem que a faça parecer uma imbecil. Não há nada de errado em falar os nomes corretos. Eu só soube como ocorria a reprodução humana na quarta série, obviamente numa aula de ciências. Ah, era daquele jeito então, pensei...daí o espermatozóide vai encontrar o óvulo, como mostraram no filme Olha quem está falando. Mas questão comportamental, aquelas dúvidas típicas das adolescentes só foram sanadas após ler muita revista Capricho e ver programas da MTV. Sim, acreditem em mim, a revista Capricho já foi muito melhor pois não tinha celebridades teens na capa e nem tinha tanta futilidade no conteúdo. Lembro me muito bem da campanha Camisinha tem que usar e de reportagens que tratavam tanto das mudanças físicas quanto comportamentais das adolescentes. Era uma mão na roda!Já a MTV tinha vinhetas muito bem sacadas sobre o uso da camisinha,pregando sempre o respeito a si mesmo e até levando os telespectadores a uma reflexão. Tinha o programa Erótica, comandado pela Babi e pelo Doutor Jairo Bouer. E por último mas não menos importante, tinha o DIA MUNDIAL DA LUTA CONTRA A AIDS. É todo o dia 1º de dezembro e a programação é toda com conteúdos sobre a AIDS, diversos documentários (nacionais e internacionais). Já faz muito tempo que eu não vejo a MTV por já me sentir velha demais para o canal, então algum de vocês sabem se ela ainda tem essa preocupação com os jovens e falar abertamente sobre temas tabus?
Bom, me empolguei de novo, deixe me voltar ao foco. Bom, o namoro da Val terminou após dois anos, no mesmo período em que ela terminou o colegial. Como ela ia viajar para Nova York visitar uma tia, ela foi checar uma leve dor no estômago que vinha sentindo. O médico descobriu que era sapinho no esôfago; desconfiado, pediu um exame de imunidade, que resultou baixa. Pediu então o exame de HIV, que deu positivo. Em 1989 a AIDS era tratada como um sinônimo de morte e o preconceito era muito grande por parte da mídia e da população em geral. Tanto que a Valéria não contou de imediato para os amigos. Um deles, que estudava odontologia, afirmou que não atenderia um paciente aidético. Há também uma passagem que se refere a um palestrante que tratou da situação dos soros positivos de modo jocoso. Isso me lembrou a foto de capa da Veja:
Capa sensacionalista da Veja.
Uma decisão tomada pela Valéria nos chamará atenção quase que o livro inteiro: ela se recusava em seguir um tratamento, ou seja, não tomava o AZT. Seria isso uma espécie de suicídio? Afinal, imagine você sempre ouvindo que AIDS mata, não há muito tempo de vida, então por que fazer planos para um futuro que não irá se concretizar??? Seria mais ou menos a sensação de ter uma bomba relógio bem na sua cabeça, o tic-tac batendo sem parar. Porém ela teve a sorte do vírus não se manifestar. Em 1993 ela foi fazer um curso de inglês com duração de seis meses, lá na Califórnia. Essa viagem que acabou mudando a vida dela. Aliás, me questiono agora se a viagem que está no título do livro refere-se a do navio ou a dos Estados Unidos? A risco dizer que foi a última, pois foi como um frescor batendo na cara saber que lá nos EUA já se falavam de pessoas vivendo com HIV e AIDS. Todos os doutores que trataram Valéria, tanto lá fora quanto os daqui do Brasil, não tem seus nomes citados mas a Valéria usa pseudônimos como Doc, Doutor Infecto (que virou Doutor Afeto) e o Doutor Anjo. Em muitos momentos senti a nossa protagonista um tanto carente e agindo como uma criança mimada, daquelas que faziam malcriação só para ter a atenção (no caso dos médicos). Mas até eu agiria assim numa situação dessas. Achei muito bacana a Valéria expor todas as suas reflexões sobre a vida durante sua estadia na Califórnia. Como por exemplo, quando ela ia caminhar com seu amigo Lucas, subir nas montanhas para poder meditar, olhar o imenso céu e perceber que está viva e ao mesmo tempo se sentir tão pequena num universo infinito. "Todos nós somos um milagre". Não é de se estranhar que meus capítulos favoritos envolvem ela e o Lucas.
Ler Depois Daquela Viagem me fez ter consciência do uso da camisinha, ter o respeito com meu próprio corpo e não ter preconceito com pessoas soropositivas. Seria tão fácil se todos pensassem assim, né?
Soundtrack
Ei, ainda não acabou!
Vocês já devem ter lido, mas não custa nada dar uma conferida nessas informações:
O que é AIDS?
A AIDS é uma sigla em inglês da síndrome da imunodeficiência adquirida. É causada pelo HIV, vírus que ataca as células de defesa do nosso corpo. Com o sistema imunológico comprometido,o organismo fica mais vulnerável a diversas doenças, como um simples resfriado ou infecções mais graves como tuberculose e câncer. O próprio tratamento dessas doenças, chamadas oportunistas, fica prejudicado.
Mas atenção! A AIDS é o estágio mais avançado da infecção pelo HIV. Uma pessoa pode passar muitos anos com o vírus sem apresentar sintomas. A duração desse período depende da saúde e dos cuidados dos soropositivos com o corpo e alimentação.
Quanto mais cedo a infecção for descoberta, melhor. Portanto faça o teste sempre que se expor ao HIV. Atualmente a AIDS pode ser considerada uma doença de perfil crônico, isto significa que é uma doença sem cura, mas tem tratamento e uma pessoa com HIV pode viver com o vírus por um longo período.
Testes para diagnóstico da infecção pelo HIV
O diagnóstico da infecção pelo HIV é feito por meio de testes, realizados a partir da coleta de uma amostra de sangue. Esses testes podem ser realizados nos laboratórios de saúde pública, por meio do atendimento do usuário nas unidades básicas de saúde, em Centros de Testagem e Aconselhamento (CTA) e em laboratórios particulares. Nos CTA, o teste anti-HIV pode ser feito de forma anônima e gratuita. Nesses centros, além da coleta e da execução dos testes, há uma processo de aconselhamento, antes e depois do teste, feito de forma cuidadosa, a fim de facilitar a correta interpretação do resultado pelo paciente. Todos os testes devem ser realizados de acordo com a norma definida pelo Ministério da Saúde e com produtos registrados na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA/MS)
Onde fazer?
RIO DE JANEIRO
CTA - Rocha Maia no Rio de Janeiro
Hospital Municipal Rocha Maia
Rua General Severiano, 91
CEP 22290-901 - Botafogo
Rio de Janeiro - RJ
CTA - Gaffre Guinle do Rio de Janeiro
Hospital Universitário Gaffrée Guinle
Rua Maris e Barros, 775
CEP 20270-004 - Tijuca
Rio de Janeiro - RJ
CTA - Madureira / Unidade Integrada de Saúde Herculano Pinheiro
VOCÊ PODE PROCURAR POR UMA CTA NO SEU MUNICÍPIO NO LINK DO MINISTÉRIO DA SAÚDE, www.aids.gov.br, OU MESMO PROCURANDO UM POSTO DE SAÚDE.
HIV no Brasil
Estima-se que 600 mil pessoas no Brasil vivam com o HIV ou já tenham desenvolvido a AIDS. É muito importante que as pessoas que passaram por uma situação de risco façam o teste. Entre situações, estão: relação sexual com parceiros eventuais sem o uso de preservativos; compartilhamento de seringas e agulhas, principalmente no uso de drogas injetáveis; transfusão de sangue; acidentes ocupacionais com objetos perfuro-cortantes que contenham material biológico de origem humana e presença de sangue ou fluidos contaminados pelo HIV.
Uso da camisinha
Diversos estudos confirmam a eficiência do preservativo na prevenção de AIDS e de outras doenças sexualmente transmissíveis. Em um estudo realizado recentemente na Universidade de Wisconsin (EUA), demonstrou-se que o correto e sistemático uso de preservativos em todas as relações sexuais apresenta uma eficácia estimada em 90-95% na transmissão do HIV. Os autores desse estudo sugerem um relação linear entre a frequência do uso de preservativos e a redução do risco da transmissão, ou seja, quanto mais se usa camisinha menor é o risco de contrair o HIV.
Lembrando que de nada adianta você pensar que se casando não há a necessidade de usar camisinha. Vamos falar abertamente: você fica 24 horas do seu parceiro? Ah, mas eu confio Shil...Pergunto de novo: VOCÊ FICA 24 HORAS JUNTO DO SEU PARCEIRO(A)? A AIDS não é só transmitida através do ato sexual; o sociólogo Betinho foi contaminado numa transfusão de sangue, por exemplo. O fato de uma pessoa se casar virgem (e portanto ter sua primeira vez após o casamento) não a impede contrair qualquer doença sexualmente transmissível caso ela não use o preservativo. Galera, na boa, não quero que vocês deixem de lado suas crenças mas não se deixem alienar, saúde é coisa séria e vamos usar o bom senso.
Comecei a ler Precisamos Falar sobre o Kevin no dia 16/12/2012 e só terminei a leitura na sexta-feira passada. A demora deve-se ao fato de eu não ter o livro em mãos, mas sim salvo em PDF. Confesso que acho muito sem graça não o ter em mãos para cheirá-lo, folhear despretenciosamente as páginas, levar para qualquer canto, ler na hora de dormir. Não, não tenho laptop ou teibout*, o que me obriga a sentar a bunda na cadeira e ficar no meu quarto lendo a história de Kevin em frente ao pc. Sempre às 18 horas em ponto eu dava início a leitura, mas muitas vezes ela era interrompida devido às fortes tempestades de verão (morro de medo que um aparelho queime devido a um raio). Fora isso, eu estava bastante empolgada em ler o título em questão porque seria uma história inédita para mim. Eu já tinha conhecimento da adaptação de Kevin nos cinemas, filme que eu ainda não tive a oportunidade de ver. Ele estreou aqui no início do ano passado e li boas críticas a respeito dele. Sei que os personagens principais ficaram com a Tilda Swinton interpretando Eva e Ezra Miller, no papel do Kevin.
Lógico que eu utilizei da imagem deles ao ler a obra. Isso não prejudicou o poder da imaginação, aliás eu acredito que Lionel Shriver, ao escrever a história, lá no fundo desejava que seu filme pudesse ser adaptado. A minha colega facebookiana Paula Dantas me alertou que o livro poderia me deixar down pela história em si e isso só aguçou a minha curiosidade. Aliás, a Paula não gostou muito do filme não... Segue o trailer para servir de aperitivo:
Sobre o Livro
Essa capa me deixa com arrepios, macabra, né? Eu resolvi ler o livro sem pesquisar nada na internet, não quis saber em que ano foi lançado, não li nada a respeito do autor e a repercussão que a história causou. Só sabia apenas que Kevin foi responsável pelo assassinato frio e à queima roupa de alunos da escola onde estudava. Ele tinha apenas 15 anos e Eva sempre se refere ao dia da tragédia como aquela quinta-feira. Os fatos são narrados por Eva através de cartas destinadas ao ex-marido (isso fica subentendido), Richard. Curioso, este é o segundo livro narrado por uma personagem feminina em forma de depoimentos. A diferença é que esse é um livro totalmente ficcional, embora seja ambientado num período e lugares não tão distantes do nosso: EUA em pleno no ano 2001. Eva comunica-se com o ex e vai nos apresentados os fatos em flashbacks, desde a infância do pequeno Kevin até o dia do massacre. Eu considerei esse início um pouco tedioso e lento. O vocabulário era um tanto rebuscado, me forçando a pedir ajuda ao dicionário. Acredite ou não, isso deixava a leitura truncada. Eu tinha uma certa urgência em saber logo quem era Kevin e o que o motivou a fazer aquela barbaridade; mas Eva ia pouco a pouco preparando o terreno, nos mostrando todo o cenário da sua vida pré-Kevin. Eva Khatchadourian nasceu em 1945, filha de pais armênios. Seu pai morreu na guerra e sua mãe sofria de agorafobia (medo de lugares públicos). Ela é apresentada, ou melhor, se descreve como uma mulher independente. Trabalhava numa agência de viagens, visitando os países para fazer um relatório completo sobre as condições do local e assim poder criar guias para os turistas. Ela deixava bem claro sua satisfação em relação ao trabalho. Já o seu marido, Richard, era um estado-unidense típico, o cara born in the USA que ama o seu país embora não seja lá um cara ruim, mas que acreditava no american way of life. Eles tinham uma vida muito boa, regadas a festas com amigos, cumplicidade e possuíam boa sintonia na cama. Ela já dava indícios que não teria propensão para ser mãe; eu pelo menos entendi que ela não sentia o cio materno. Logo parei para refletir sobre essa necessidade que muitas mulheres criam de ser mães. Ou melhor explicando, esse fardo, essa obrigatoriedade que para ser feliz toda mulher deve casar e ter filhos. Não tem jeito, quando um casal acaba de descer no altar, a primeira pergunta feita à mulher é "e quando vão providenciar um filhinho?". Casais podem ser felizes sem filhos. Aliás, existem pessoas que não tem o menor tato com crianças. A biologia pode afirmar que exista o instinto em perpetuar a espécie, que há um momento em que toda mulher sente a necessidade em gerar filhos, mas isso é generalizar. Talvez eu seja muito rabugenta e pessimista pois eu não tenho nenhum exemplo positivo de maternidade. Muitos consideram o ato de ter filhos como uma consequência natural do amor de um casal apaixonado. Mas filho pra mim seria sinônimo de planejamento e investimento. Aí sim os meus genes gritariam para perpetuar a espécie. Porém, tanto na minha família e alguns conhecidos, o que eu vejo é uma sucessão de gravidez não planejadas. Claro que não vou entrar no mérito se em todos os casos a 'camisinha estourou' ou se eles pura e simplesmente transaram sem proteção, acontece que a notícia da chegada de um bebê foi assim, no susto. Sabe quantos casais permaneceram juntos após o nascimento do bebê? Só dois, mas um está pela corda bamba pela infantilidade da mãe. Engraçado, no final do mês eu me desentendi com minha mãe porque ela mentiu pra mim, em prol da sua outra filha. Considerei a atitude delas como de hipócritas e outra irmã veio tomar as dores da minha mãe, afirmando que "não admitia que chamassem a mãe de hipócrita, mãe é um ser supremo e imaculado, sagrado, acima do bem e do mal". Mães, na minha opinião, são passíveis de erros, falham na tentativa em "evitar conflitos'" usando da mentira e manipulando os filhos. Sim, minha mãe fez isso. Nada que uma conversa resolva mas ainda sim, pais (eles também, se não vocês vão achar que meu problema é só com as mães) e mães são passíveis de muitos erros. Também eu lembrei da conversa que tive com a Gabby sobre as pessoas que não estão preparadas para serem pais. É uma quantidade absurda de gente tão novinha que abre mão dos estudos e/ou de uma carreira por causa de uma gravidez indesejada. No fim, acabam deixando os rebentos com os avós, sempre eles para limpar a barra.
Desculpem a digressão, 'bora voltar ao foco. E meu foco é a Eva. Não foi por acaso a escolha do nome, eu sinto uma referência à Eva da Bíblia, a mãe de todos. E com o passar de seus depoimentos eu me encantava mais por essa mulher, tão sincera, uma sinceridade que parecia uma faca muito afiada. É de uma frieza absurda como ela relata o início da gravidez. Aliás, achei um pouco confusa a decisão dela de ter um filho...ou melhor: dar um filho ao marido. Richard se dedicou a essa gravidez bem mais do que a mulher. A cena do parto descrita por ela foi uma coisa de outro mundo. Tira do mais ingênuo aquela imagem "comercial de margarina" da cabeça e mostra a real sobre o que é ser mãe...pelo menos na ótica de Eva. Aliás, não sei se o livro foi inspirado em alguma história real, mas é fato que os EUA são conhecidos por esses massacres de estudantes em escolas (ou cinemas). É legal também tentar entender através de Eva onde foi que eles erraram em relação ao filho, mas é aí que eu acho que o livro perde pontos. É louvável a franqueza da mãe ao afirmar que nem de longe sentiu o afeto tanto proclamado por "mãemães" do mundo inteiro. Mas também percebemos que o menino demonstrou aversão à mãe logo nos primeiros segundos de vida. É uma solução muito simplória para tentar justificar a personalidade do menino ao longo dos anos. Já li a respeito de pequenos psicopatas, o que a neurobiologia tenta descobrir mas eu entendi que Kevin não se trata de um pequeno psicopata. Antes de tudo, ele é um irritante. Pior que ele, só o pai. É um personagem plano, no qual acredita cegamente na conversinha furada do filho e acha que todos estão perseguindo Kevin. Há muitos momentos em que eu simplesmente queria dar uns berros com esse cara, puxa, que tapado! Daí eu senti que o autor não nos dava essa liberdade para refletirmos sobre as decisões dos personagens. A palavra era da Eva e ela dava as cartas. Por outro lado eu ficava fascinada por Eva e seu relacionamento com o filho. Minhas partes favoritas eram o diálogos; era como viver a angústia daquela mulher. Interessante o modo como ela contava os fatos: geralmente iniciava com acontecimentos recentes e logo introduzia os flashbacks. O que fica difícil de compreender é essa natureza maligna do garoto. Como citei anteriormente, as personagens são planas, não há uma grande reviravolta em seus sentimentos ou ações, fica tudo muito previsível. Mas no capítulo final o autor tentou dar uma guinada que, ao meu ver, não foi muito bem sucedida. É um tanto bobo como é feita a revelação do destino de dois personagens, juro que eu tive de reler o capítulo (acreditei piamente que o problema era desatenção minha!). Mas não, estava lá uma revelação que não me comoveu muito. Outro ponto que poderia ter mais destaque seria a facilidade que os estado unidenses tem acesso às armas de fogo. Algo foi comentado num diálogo, mas nada que chame tanto a atenção.
Eu recomendo o livro, por isso resolvi aqui não reproduzir nenhuma passagem do livro, isto é, descrever palavra por palavra de alguns fatos pois isso tiraria um pouco da surpresa em relação ao personagem título. Apesar da escolha do autor do livro em ter um único foco narrativo, o da Eva, há ainda sim aquela vontade de saber o que mais aquela mãe irá vivenciar. Agora houve uma situação engraçada: terminada a leitura eu fui finalmente ler a respeito de Lionel Shriver e eu quase caí da cadeira ao ver que Lionel é uma mulher!!!!
Soundtrack
Músicas que vieram a minha mente ao ler Precisamos falar sobre o Kevin: