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domingo, 24 de março de 2013

Embarcando com Gil Vicente

Finalmente vou escrever sobre um livro no qual a história não é baseada em fatos reais, tão pouco narrado  em primeira pessoa. Escolhi um clássico revisitado, O auto da barca do inferno de Gil Vicente. Ah Shil, puta livro chato, só li porque cai no vestibular e nunca mais me aventurei a lê-lo novamente. Eu entendo vocês, o fato do livro estar relacionado em uma lista obrigatória já desperta uma aversão dos alunos. Em um mundo perfeito todas as pessoas teriam o hábito da leitura ( de bons livros é claro, 50 tons de cinza não vale) por livre e espontânea vontade. Empurrar um livro de mil e quinhentos e trá-lá-lá para um jovem é uma tarefa árdua. É que galerinha é um tantinho arrogante, chegando até a desprezar tudo aquilo que foi criado antes do seu tempo. Cabe um incentivo e um grande jogo de cintura dos professores para tornar a obra relevante aos alunos. 

Vocês devem estar se perguntando, Shil, você escreveu que é uma versão revisitada, como assim? Então meus caros, eu li uma versão d'O auto da barca do inferno em quadrinhos, concebido por Laudo Ferreira. Eu achei essa ideia fantástica, tornando o conteúdo mais atraente. Claro que, assim como uma adaptação cinematográfica, converter uma história para os quadrinhos limita um pouco a imaginação do leitor. Antes cada personagem tinha a imagem criada por MIM, pessoas que só existiram na minha mente fértil. Por outro lado é legal perceber nos desenhos alguns detalhes que passaram despercebidos por mim quando li O auto... pela primeira vez. Analisando pela perspectiva estética, o traço escolhido pelo Laudo Ferreira é bem forte, lembrando bastante as charges que são publicadas em  jornais. Me chamaram a atenção as figuras do Diabo e do Anjo. Na minha visão, o Berzebu seria mais elegante, andrógino, um olhar mais frio e ao mesmo tempo cínico e com um pequeno toque de humor (um humor negro, é claro). O Diabo apresentado na HQ é mais bufante, diria mais, um tanto quanto carnavalesco. Confesso que no início me decepcionou um pouco; mas depois observado mais, ele até me lembrou o vocalista do System of a Down ( ^.^ ):

Eis a capa do livro

Não concordam que ele seria perfeita encarnação do demônio?



A figura do Anjo também divergiu da minha; eu tinha em mente aquela figura clássica de roupa branca, cabelos cacheados e um olhar que transbordava bondade... A visão do Laudo foi de uma figura mais severa, daquelas que devem impor respeito, sabe. E de imediato eu me lembrei do anjo Gabriel do filme Constantine, interpretado pela Tilda.

Esse anjo mete mais medo do que o próprio demo!


Esse anjo impõe respeito!


Para quem não é familiarizado com a obra vicentina aqui vai a sinopse: a história começa num porto onde há duas barcas: uma vai para o paraíso, guiada pelo Anjo,e a outra para o inferno, comandada pelo Diabo e seu ajudante. Conforme o decorrer da história os futuros tripulantes - os defuntos - chegam meio desorientados e são surpreendidos pelo Coisa-Ruim. Apresentam-se na seguinte ordem: o fidalgo, o onzeneiro, o parvo, o sapateiro, o frade e sua moça Florença, Brísida Vaz (a alcoviteira), o judeu, o corregedor e o procurador, o enforcado e os quatros cavaleiros. O Diabo e o Anjo são alegorias representantes do Mal e do Bem, atuando como juízes do julgamento das almas, levando em conta todas as ações dos personagens na Terra. Portanto o Auto da barca do inferno é uma peça totalmente moralista. É como se o Gil quisesse expor toda a fragilidade moral da sociedade portuguesa do seu tempo. Imagine se ele vivesse no Brasil e tivesse acesso às maracutaias que rolam soltas no nosso congresso! Nem livros ele precisaria publicar, ele criaria a página Gil Vicente da Depressão no Facebook e nos brindaria com várias críticas bem humoradas. 

Não posso negar que o Diabo é a figura mais me fascina nessa peça. Não, por favor não associem o fato de  eu ser ateia com adoração com o tinhoso. Se eu não acredito em deus também não acredito no oposto. Ocorre que nessa história ele é um juiz tão impiedoso quanto o próprio Anjo, porém apresenta diálogos tão envolventes e convincentes para com os defuntos, apresentando-se como uma figura sarcástica, bem humorada, rindo da hipocrisia das personagens. Aliás, isso me lembrou de uma matéria de uma edição especial da revista Super Interessante que eu tenho guardada desde maio de 2009. O tema é Deus e a revista traz matérias sobre a existência ou não de deus, o  embate sobre a religião e a ciência, entrevista com teólogos e cientistas. Há duas páginas destinadas ao demo, por razão do livro Satã, uma biografia, de Henry  Ansgar Kelly. Aqui vai a reprodução de parte da matéria:

"A história original do demônio-aquela que está registrada os textos bíblicos- foi deturpada ao longo dos tempos. Na verdade, o diabo não seria tão ruim assim. E a difamação começou nos primeiros séculos do cristianismo. Para o pesquisador americano, a Bíblia revela que o demônio era uma espécie de "empregado de deus"- uma entidade moralmente correta, encarregada de perseguir e acusar os pecadores, porém os pais da igreja, ao interpretar o episódio bíblico de Adão e Eva no jardim do Éden, associaram-no à imagem da serpente traiçoeira. A partir daí, diz Kelly, ele foi se transformando em inimigo de deus, até virar a representação máxima do mal."


Esse meu reencontro com O auto da barca do inferno me fez lembrar de outras obras que contavam com a presença ilustre do Cão. As mais memoráveis para mim são essas:

O Auto da Compadecida - interpretado por Luís Melo


Hoje é dia de Maria - interpretado por Ricardo Blat 


O Advogado do Diabo - interpretado pro Al Pacino

Por isso eu falo: Al is All!!!

As Bruxas de Eastwick - Jack Nicholson ( porque pra mim, se o diabo existisse ele seria o próprio Jack!)


A Profecia (1976) - o Damien dessa versão é mais assustador do que a versão de 2006

Essa trilha me causa calafrios!!!!

Soundtrack







Espero que nenhum de vocês queiram me exorcizar da próxima vez que me virem!


terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Somos todos um milagre



Estava arrumando minhas pastas, jogando fora velhas faturas, comprovantes de compras, anotações que não me ajudaram a lembrar de nada, telefones não identificados, recados não passados...enfim, dando uma geral no meu armário. Numa delas encontrei um livreto chamado livro da vida. Ele contem apenas 64 páginas mas contem muita informação sobre Keith Haring e a AIDS. "Keith quem?", vocês devem estar se perguntando. Calma, eu também nunca tinha ouvido falar nesse nome e foi uma grata surpresa descobrí-lo. Infelizmente eu não tenho a data precisa, não sei se foi em 2010 ou em 2011 quando eu e a Gabby estávamos numa dessas nossas andanças pela Avenida Paulista e entramos no Conjunto Nacional, mais precisamente na galeria da Caixa Cultural. Exposição gratuita, sempre uma chance de deixar o estresse no lado de fora e poder descobrir novas formas de arte. Numa olhadinha rápida, as obras do Keith parecem aqueles desenhos feitos pelas crianças em idade pré-escolar, tipo um "homem-palito modernizado". Mas isso que torna os quadros mais legais: ele na verdade aborda temas sérios com uma linguagem leve e de fácil entendimento, tornando os desenhos atemporais. Na saída da galeria, nós pegamos o livreto que eu citei e conhecemos melhor o artista. 



Ele nasceu em 4 de maior de 1958, desenvolveu uma paixão por desenhar ainda muito jovem,aprendendo as técnicas básicas de caricaturas e desenhos animados com seu pai, e com a cultura popular à sua volta, como Dr Seuss e Walt Disney. Entrou na Ivy School of Professional mas logo saiu, percebendo que tinha pouco interesse em virar um artista gráfico comercial.  Mudou-se para Nova York e encontrou uma comunidade artística alternativa, que estava se desenvolvendo fora do eixo de galerias e museus, e sim nas ruas do centro, nos metrôs e espaços em clubes noturnos. Além de ter ficado impressionado pela inovação e energia desses artistas de sua época, Haring também obteve inspiração com o trabalho de Jean Dubuffet, Pierre Alechinsky, Willian Borroughs e com o manifesto The Art Spirit, de Robert Henri, que afirmava a independência fundamental do artista. Com essas influências, Haring pode direcionar seus próprios impulsos da juventude para um tipo de expressão gráfica excepcional baseada na supremacia da linha. 



Entre 1980 e 1989 , ele atingiu reconhecimento internacional e participou de numerosas exposições solo e coletivas. Sua primeira exposição individual em Nova York foi feita no Westbeth Painters Space em 1981. Em abril de 1986, Haring inaugurou a Pop Shop, uma loja no Soho que vendia camisetas, brinquedos, pôsteres, bottons e ímãs de geladeira ilustrados com suas imagens. Ele considerou a loja como uma extensão do seu trabalho.



Haring foi diagnosticado com AIDS em 1988. Em 1989, ele criou a Keith Haring Foundation, com o encargo de fornecer fundos e imagens para organizações em prol da AIDS e programas para crianças, e de expandir o público dos trabalhos de Haring através de exposições, publicações e licenciamento de suas imagens. Haring recrutou suas figuras durante os últimos anos de sua vida para falar sobre sua própria doença e para aumentar o ativismo e consciência a respeito da AIDS.




Keith Haring morreu de complicações decorridas da AIDS aos 31 anos de idade, em 16 de fevereiro de 1990. Um memorial comemorativo foi realizado em 4 de maio, na Catedral St. John the Divine em Nova York, no qual mais de 1000 pessoas compareceram. 

"No início, você fica completamente arrasado. Você passa por uma enorme, enorme tristeza. Quer dizer, mesmo que de alguma forma eu esperava que isso acontecesse, quando realmente acontece, você não está preparado. Então a primeira coisa que você faz é entrar em colapso. Fui até o East River no Lower East e apenas chorei, chorei e chorei."

"Viver com uma doença mortal lhe dá toda uma nova perspectiva sobre a vida. Não que eu precisasse de alguma ameaça de morte para apreciar a vida, porque sempre apreciei a vida. Sempre acreditei que a vida tem que ser vivida tão plenamente e tão intensamente como tem que ser - e lidar com o futuro como ele se apresenta"

"Vivo todos os dias como se fosse o último. Eu amo a vida"

Além dos apresentar a vida e obra de Keith Haring, O livro da vida contém um total de 10 depoimentos de homens e mulheres soropositivos (tanto homossexuais quanto heterossexuais, vale frisar). O último relato é de Valéria Piassa Polizzi, 39 anos escritora e jornalista. Esse nome eu já conhecia. Aliás, essa moça dividiu com milhares de leitores sua história. E aqui começa de fato a apresentação do livro que eu incorporei no desafio literário. Tudo que foi escrito antes foi apenas um aperitivo e acredito que esse será um dos maiores textos. Eu tô com a corda toda. 

Valéria lançou em 1998 o livro Depois Daquela Viagem - Diário de bordo de uma jovem que aprendeu a viver com AIDS. Esse livro foi me apresentado graças a minha professora de Português, a Eliane. Eu estava na x série, no colégio Chafic, e ela aplicaria uma prova baseada nesse livro. Acredito que a Eliane tinha segundas ( e boas intenções) ao apresentar a história da Valéria Polizzi aos seus alunos. Querendo ou não, todos nós ainda éramos verdes, engatinhando na adolescência e por mais estranho que possa soar atualmente, na metade dos anos 90 o preconceito e falta de informações sobre AIDS/HIV ainda eram enormes. Para mim pelo menos, o relato da Val foi muito esclarecedor e ele deu chances para que ela fosse convidada a participar em diversos programas voltados para os adolescentes, como por exemplo o Programa Livre, do SBT, entrevistas para revistas como Capricho e Atrevida (onde depois ela virou colunista com o Papo de Garota). Durante todo esse período  entre 2000 até o dia em que li o depoimento dela no Livro da vida, eu nunca mais tinha notícias da Valéria e assim que terminei de reler o Depois... eu fui localizá-la através do Oráculo de Delfos (vulgarmente conhecido como Google). 

AIDS, palavrinha que ouvi pela primeira vez aos quatro anos, quando o Fantástico anunciava a morte do Cazuza. Apesar da minha pouca idade eu adorava cantar as músicas dele, mesmo não entendendo muito bem o que ele queria expressar através de suas letras. E lembro me bem de ter gostado do clipe de Ideologia, acho que era o clipe que mais passava durante a cobertura do falecimento do Cazuza. 

Porém eu não compreendia bem a gravidade do que era uma pessoa pegar AIDS, algo que descobri com o passar dos anos e muito isso graças a Valéria Polizzi,

Sobre o livro




Eu tenho em mãos a 13ª edição e a capa está um tanto quanto amarelada e com meu toque 
pessoal:eu tinha escrito RED HOT CHILI PEPPERS, rsrs... O bacana do texto é o tom informal que a Valéria usou para comunicar-se diretamente com os jovens, sem firulas, assim na lata mesmo. É como se ela estivesse entre uma roda de amigos para um bate-papo descontraído, troca de ideias, sacaram? Curiosamente o prólogo do livro tem o título "Muito Prazer", o que me levou a pensar não só no prazer em se apresentar...mas também nos outros prazeres, inclusive o sexual (justo ele que como o Cazuza muito bem cantou ♫O meu prazer agora é risco de vida♫). A Val nos explica que é uma soropositiva por pura e simplesmente não ter usado camisinha. Era a sua primeira vez. Simples assim, direto e reto - e com um toque de bom humor. Particularmente achei hilário ela ter questionado ao leitor se ao saber que ela era portadora do HIV, se ele tinha jogado o livro pra bem longe e se também foi desinfetar as mãos. Logo de cara ela nos faz perceber que o maior vilão a cerca da AIDS/ HIV é a falta de informação, que leva ao preconceito (e claro, sexo sem camisinha, nem preciso dizer que isso é um erro fatal). A forma de contágio do vírus era (ou ainda é) associada a relacionamentos homossexuais, prostitutas e drogados, o chamado grupo de risco. A Valéria mesmo afirma no livro que os médicos aqui no Brasil ficaram espantados por ela, uma moça tão jovem (16 anos na época), heterossexual ter contraído o vírus. Tudo começou após uma viagem num cruzeiro marítimo, em 1986, onde ela conheceu seu primeiro namorado. Ela ainda era virgem e após seis meses de namoro, eles transaram mas sem o uso do preservativo. Chegou a ser cômico o modo como ela e suas amigas pensavam e o que conheciam sobre o sexo. Como, por exemplo, deduzir que sexo oral era quando a pessoa ficava gemendo durante a transa. 

A verdade é que nossos pais ou qualquer parente não estão preparados par falar com a gente sobre sexo e tudo o que está relacionado a ele. Não sei se é culpa da formação católica, onde sentir prazer ou pensar em transar é pecado ou ainda, pensam que é um ato exclusivo para procriação de outra vida. Só sei que até hoje há um baita constrangimento dos pais ao conversar com os filhos. Eu mesma, quase não conversava com minha a respeito, suspeitando que ela não me compreenderia ou então viria com um discurso muito retrógrado. As pessoas tem vergonha até em falar o nome correto dos órgãos genitais e ficam botando apelidinhos bocós. Peru, piu-piu, perereca, piriquita?!!! Poxa, é pênis e vagina, tem algo de errado falar com uma criança sem que a faça parecer uma imbecil. Não há nada de errado em falar os nomes corretos. Eu só soube como ocorria a reprodução humana na quarta série, obviamente numa aula de ciências. Ah, era daquele jeito então, pensei...daí o espermatozóide vai encontrar o óvulo, como mostraram no filme Olha quem está falando. Mas questão comportamental, aquelas dúvidas típicas das adolescentes só foram sanadas após ler muita revista Capricho e ver programas da MTV. Sim, acreditem em mim, a revista Capricho já foi muito melhor pois não tinha celebridades teens na capa e nem tinha tanta futilidade no conteúdo. Lembro me muito bem da campanha Camisinha tem que usar e de reportagens que tratavam tanto das mudanças físicas quanto comportamentais das adolescentes. Era uma mão na roda!Já a MTV tinha vinhetas muito bem sacadas sobre o uso da camisinha,pregando sempre o respeito a si mesmo e até levando os telespectadores a uma reflexão. Tinha o programa Erótica, comandado pela Babi e pelo Doutor Jairo Bouer. E por último mas não menos importante, tinha o DIA MUNDIAL DA LUTA CONTRA A AIDS. É todo o dia 1º de dezembro e a programação é toda com conteúdos sobre a AIDS, diversos documentários (nacionais e internacionais). Já faz muito tempo que eu não vejo a MTV por já me sentir velha demais para o canal, então algum de vocês sabem se ela ainda tem essa preocupação com os jovens e falar abertamente sobre temas tabus?

Bom, me empolguei de novo, deixe me voltar ao foco. Bom, o namoro da Val terminou após dois anos, no mesmo período em que ela terminou o colegial. Como ela ia viajar para Nova York visitar uma tia, ela foi checar uma leve dor no estômago que vinha sentindo. O médico descobriu que era sapinho no esôfago; desconfiado, pediu um exame de imunidade, que resultou baixa. Pediu então o exame de HIV, que deu positivo. Em 1989 a AIDS era tratada como um sinônimo de morte e o preconceito era muito grande por parte da mídia e da população em geral. Tanto que a Valéria não contou de imediato para os amigos. Um deles, que estudava odontologia, afirmou que não atenderia um paciente aidético. Há também uma passagem que se refere a um palestrante que tratou da situação dos soros positivos de modo jocoso. Isso me lembrou a foto de capa da Veja: 

Capa sensacionalista da Veja.


Uma decisão tomada pela Valéria nos chamará atenção quase que o livro inteiro: ela se recusava em seguir um tratamento, ou seja, não tomava o AZT. Seria isso uma espécie de suicídio? Afinal, imagine você sempre ouvindo que AIDS mata, não há muito tempo de vida, então por que fazer planos para um futuro que não irá se concretizar??? Seria mais ou menos a sensação de ter uma bomba relógio bem na sua cabeça, o tic-tac batendo sem parar. Porém ela teve a sorte do vírus não se manifestar. Em 1993 ela foi fazer um curso de inglês com duração de seis meses, lá na Califórnia. Essa viagem que acabou mudando a vida dela. Aliás, me questiono agora se a viagem que está no título do livro refere-se a do navio ou a dos Estados Unidos? A risco dizer que foi a última, pois foi como um frescor batendo na cara saber que lá nos EUA já se falavam de pessoas vivendo com HIV e AIDS. Todos os doutores que trataram Valéria, tanto lá fora quanto os daqui do Brasil, não tem seus nomes citados mas a Valéria usa pseudônimos como Doc, Doutor Infecto (que virou Doutor Afeto) e o Doutor Anjo. Em muitos momentos senti a nossa protagonista um tanto carente e agindo como uma criança mimada, daquelas que faziam malcriação só para ter a atenção (no caso dos médicos). Mas até eu agiria assim numa situação dessas. Achei muito bacana a Valéria expor todas as suas reflexões sobre a vida durante sua estadia na Califórnia. Como por exemplo, quando ela ia caminhar com seu amigo Lucas, subir nas montanhas para poder meditar, olhar o imenso céu e perceber que está viva e ao mesmo tempo se sentir tão pequena num universo infinito. "Todos nós somos um milagre". Não é de se estranhar que meus capítulos favoritos envolvem ela e o Lucas. 

Ler Depois Daquela Viagem me fez ter consciência do uso da camisinha, ter o respeito com meu próprio corpo e não ter preconceito com pessoas soropositivas. Seria tão fácil se todos pensassem assim, né? 

Soundtrack






Ei, ainda não acabou!


Vocês já devem ter lido, mas não custa nada dar uma conferida nessas informações:

O que é AIDS?

A AIDS é uma sigla em inglês da síndrome da imunodeficiência adquirida. É causada pelo HIV, vírus que ataca as células de defesa do nosso corpo. Com o sistema imunológico comprometido,o organismo fica mais vulnerável a diversas doenças, como um simples resfriado ou infecções mais graves como tuberculose e câncer. O próprio tratamento dessas doenças, chamadas oportunistas, fica prejudicado. 

Mas atenção! A AIDS é o estágio mais avançado da infecção pelo HIV. Uma pessoa pode passar muitos anos com o vírus sem apresentar sintomas. A duração desse período depende da saúde e dos cuidados dos soropositivos com o corpo e alimentação.

Quanto mais cedo a infecção for descoberta, melhor. Portanto faça o teste sempre que se expor ao HIV. Atualmente a AIDS pode ser considerada uma doença de perfil crônico, isto significa que é uma doença sem cura, mas tem tratamento e uma pessoa com HIV pode viver com o vírus por um longo período. 

Testes para diagnóstico da infecção pelo HIV

O diagnóstico da infecção pelo HIV é feito por meio de testes, realizados a partir da coleta de uma amostra de sangue. Esses testes podem ser realizados nos laboratórios de saúde pública, por meio do atendimento do usuário nas unidades básicas de saúde, em Centros de Testagem e Aconselhamento (CTA) e em laboratórios particulares. Nos CTA, o teste anti-HIV  pode ser feito de forma anônima e gratuita. Nesses centros, além da coleta e da execução dos testes, há uma processo de aconselhamento, antes e depois do teste, feito de forma cuidadosa, a fim de facilitar a correta interpretação do resultado pelo paciente. Todos os testes devem ser realizados de acordo com a norma definida pelo Ministério da Saúde e com produtos registrados na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA/MS)

Onde fazer?

RIO DE JANEIRO

CTA - Rocha Maia no Rio de Janeiro
Hospital Municipal Rocha Maia
Rua General Severiano, 91
CEP 22290-901 - Botafogo
Rio de Janeiro - RJ

CTA - Gaffre Guinle do Rio de Janeiro
Hospital Universitário Gaffrée Guinle
Rua Maris e Barros, 775
CEP 20270-004 - Tijuca
Rio de Janeiro - RJ

CTA - Madureira / Unidade Integrada de Saúde Herculano Pinheiro
Avenida Ministo Edgar Romero, 276 b
CEP 21360-200 - Madureira
Rio de Janeiro - RJ

SÃO PAULO

CTA -SAE Hebert de Souza "Betinho"
 Avenida Arquiteto Villanova Artigas, 515 cj. Teotônio vilela
CEP 03928-240
Sapopemba - São Paulo - SP


CTA-SAE Dr. Alexandre Kalil Yazbeck
Avenida Ceci, 2235
CEP 04065-004 - Planalto Paulista
São Paulo - SP

CTA - SAE Paulo César Bonfim (Lapa)
Rua Tomé de Souza, 30
CEP 05079-000 -  Lapa
São Paulo - SP

SÃO BERNARDO DO CAMPO

CTA - COAS Volante Alvarenga
UBS Alvarenga
Estrada dos Alvarengas, 1199
CEP 09850-550
São Bernardo do Campo - SP

BELO HORIZONTE

CTA - Belo Horizonte PAM
Sagrada Família
Rua Joaquim Felício, 141
CEP 31030-160 Sagrada Família
Belo Horizonte - MG

VOCÊ PODE PROCURAR POR UMA CTA NO SEU MUNICÍPIO NO LINK DO MINISTÉRIO DA SAÚDE, www.aids.gov.br, OU MESMO PROCURANDO UM POSTO DE SAÚDE.

HIV no Brasil

Estima-se que 600 mil pessoas no Brasil vivam com o HIV ou já tenham desenvolvido a AIDS. É muito importante que as pessoas que passaram por uma situação de risco façam o teste. Entre situações, estão: relação sexual com parceiros eventuais sem o uso de preservativos; compartilhamento de seringas e agulhas, principalmente no uso de drogas injetáveis; transfusão de sangue; acidentes ocupacionais com objetos perfuro-cortantes que contenham material biológico de origem humana e presença de sangue ou fluidos contaminados pelo HIV.

Uso da camisinha

Diversos estudos confirmam a eficiência do preservativo na prevenção de AIDS e de outras doenças sexualmente transmissíveis. Em um estudo realizado recentemente na Universidade de Wisconsin (EUA), demonstrou-se que o correto e sistemático uso de preservativos em todas as relações sexuais apresenta uma eficácia estimada em 90-95% na transmissão do HIV. Os autores desse estudo sugerem um relação linear entre a frequência do uso de preservativos e a redução do risco da transmissão, ou seja, quanto mais se usa camisinha menor é o risco de contrair o HIV. 

Lembrando que de nada adianta você pensar que se casando não há a necessidade de usar camisinha. Vamos falar abertamente: você fica 24 horas do seu parceiro? Ah, mas eu confio Shil...Pergunto de novo: VOCÊ FICA 24 HORAS JUNTO DO SEU PARCEIRO(A)? A AIDS não é só transmitida através do ato sexual; o sociólogo Betinho foi contaminado numa transfusão de sangue, por exemplo. O fato de uma pessoa se casar virgem (e portanto ter sua primeira vez após o casamento) não a impede contrair qualquer doença sexualmente transmissível caso ela não use o preservativo. Galera, na boa, não quero que vocês deixem de lado suas crenças mas não se deixem alienar, saúde é coisa séria e vamos usar o bom senso. 

Protejam-se. 


terça-feira, 8 de janeiro de 2013

De quem é a culpa?


Queridos leitores,

Comecei a ler Precisamos Falar sobre o Kevin no dia 16/12/2012 e só terminei a leitura na sexta-feira passada. A demora deve-se ao fato de eu não ter o livro em mãos, mas sim salvo em PDF. Confesso que acho muito sem graça não o ter em mãos para cheirá-lo, folhear despretenciosamente as páginas, levar para qualquer canto, ler na hora de dormir. Não, não tenho laptop ou teibout*, o que me obriga a sentar a bunda na cadeira e ficar no meu quarto lendo a história de Kevin em frente ao pc. Sempre às 18 horas em ponto eu dava início a leitura, mas muitas vezes ela era interrompida devido às fortes tempestades de verão (morro de medo que um aparelho queime devido a um raio). Fora isso, eu estava bastante empolgada em ler o título em questão porque seria uma história inédita para mim. Eu já tinha conhecimento da adaptação de Kevin nos cinemas, filme que eu ainda não tive a oportunidade de ver. Ele estreou aqui no início do ano passado e li boas críticas a respeito dele. Sei que os personagens principais ficaram com a Tilda Swinton interpretando Eva e Ezra Miller, no papel do Kevin. 


Lógico que eu utilizei da imagem deles ao ler a obra. Isso não prejudicou o poder da imaginação, aliás eu acredito que Lionel Shriver, ao escrever a história, lá no fundo desejava que seu filme pudesse ser adaptado. A minha colega facebookiana Paula Dantas me alertou que o livro poderia me deixar down pela história em si e isso só aguçou a minha curiosidade. Aliás, a Paula não gostou muito do filme não... Segue o trailer para servir de aperitivo:



Sobre o Livro



Essa capa me deixa com arrepios, macabra, né?  Eu resolvi ler o livro sem pesquisar nada na internet, não quis saber em que ano foi lançado, não li nada a respeito do autor e a repercussão que a história causou. Só sabia apenas que Kevin foi responsável pelo assassinato frio e à queima roupa de alunos da escola onde estudava. Ele tinha apenas 15 anos e Eva sempre se refere ao dia da tragédia como aquela quinta-feira. Os fatos são narrados por Eva através de cartas destinadas ao ex-marido (isso fica subentendido), Richard. Curioso, este é o segundo livro narrado por uma personagem feminina em forma de depoimentos. A diferença é que esse é um livro totalmente ficcional, embora seja ambientado num período e lugares não tão distantes do nosso: EUA em pleno no ano 2001. Eva comunica-se com o ex e vai nos apresentados os fatos em flashbacks, desde a infância do pequeno Kevin até o dia do massacre. Eu considerei esse início um pouco tedioso e lento. O vocabulário era um tanto rebuscado, me forçando a pedir ajuda ao dicionário. Acredite ou não, isso deixava a leitura truncada. Eu tinha uma certa urgência em saber logo quem era Kevin e o que o motivou a fazer aquela barbaridade; mas Eva ia pouco a pouco preparando o terreno, nos mostrando todo o cenário da sua vida pré-Kevin. Eva Khatchadourian nasceu em 1945, filha de pais armênios. Seu pai morreu na guerra e sua mãe sofria de agorafobia (medo de lugares públicos). Ela é apresentada, ou melhor, se descreve como uma mulher independente. Trabalhava numa agência de viagens, visitando os países para fazer um relatório completo sobre as condições do local e assim poder criar guias para os turistas. Ela deixava bem claro sua satisfação em relação ao trabalho. Já o seu marido, Richard, era um estado-unidense típico, o cara born in the USA que ama o seu país embora não seja lá um cara ruim, mas que acreditava no american way of life. Eles tinham uma vida muito boa, regadas a festas com amigos, cumplicidade e possuíam boa sintonia na cama. Ela já dava indícios que não teria propensão para ser mãe; eu pelo menos entendi que ela não sentia o cio materno. Logo parei para refletir sobre essa necessidade que muitas mulheres criam de ser mães. Ou melhor explicando, esse fardo, essa obrigatoriedade que para ser feliz toda mulher deve casar e ter filhos. Não tem jeito, quando um casal acaba de descer no altar, a primeira pergunta feita à mulher é "e quando vão providenciar um filhinho?". Casais podem ser felizes sem filhos. Aliás, existem pessoas que não tem o menor tato com crianças. A biologia pode afirmar que exista o instinto em perpetuar a espécie, que há um momento em que toda mulher sente a necessidade em gerar filhos, mas isso  é generalizar. Talvez eu seja muito rabugenta e pessimista pois eu não tenho nenhum exemplo positivo de maternidade. Muitos consideram o ato de ter filhos como uma consequência natural do amor de um casal apaixonado. Mas filho pra mim seria sinônimo de planejamento e investimento. Aí sim os meus genes gritariam para perpetuar a espécie. Porém, tanto na minha família e alguns conhecidos, o que eu vejo é uma sucessão de gravidez não planejadas. Claro que não vou entrar no mérito se em todos os casos a 'camisinha estourou' ou se eles pura e simplesmente transaram sem proteção, acontece que a notícia da chegada de um bebê foi assim, no susto. Sabe quantos casais permaneceram juntos após o nascimento do bebê? Só dois, mas um está pela corda bamba pela infantilidade da mãe. Engraçado, no final do mês eu me desentendi com minha mãe porque ela mentiu pra mim, em prol da sua outra filha. Considerei a atitude delas como de hipócritas e outra irmã veio tomar as dores da minha mãe, afirmando que "não admitia que chamassem a mãe de hipócrita, mãe é um ser supremo e imaculado, sagrado, acima do bem e do mal". Mães, na minha opinião, são passíveis de erros, falham na tentativa em "evitar conflitos'" usando da mentira e manipulando os filhos. Sim, minha mãe fez isso. Nada que uma conversa resolva mas ainda sim, pais (eles também, se não vocês vão achar que meu problema é só com as mães) e mães são passíveis de muitos erros. Também eu lembrei da conversa que tive com a Gabby sobre as pessoas que não estão preparadas para serem pais. É uma quantidade absurda de gente tão novinha que abre mão dos estudos e/ou de uma carreira por causa de uma gravidez indesejada. No fim, acabam deixando os rebentos com os avós, sempre eles para limpar a barra.

Desculpem a digressão, 'bora voltar ao foco. E meu foco é a Eva. Não foi por acaso a escolha do nome, eu sinto uma referência à Eva da Bíblia, a mãe de todos. E com o passar de seus depoimentos eu me encantava mais por essa mulher, tão sincera, uma sinceridade que parecia uma faca muito afiada. É de uma frieza absurda como ela relata o início da gravidez. Aliás, achei um pouco confusa a decisão dela de ter um filho...ou melhor: dar um filho ao marido. Richard se dedicou a essa gravidez bem mais do que a mulher. A cena do parto descrita por ela foi uma coisa de outro mundo. Tira do mais ingênuo aquela imagem "comercial de margarina" da cabeça e mostra a real sobre o que é ser mãe...pelo menos na ótica de Eva. Aliás, não sei se o livro foi inspirado em alguma história real, mas é fato que os EUA são conhecidos por esses massacres de estudantes em escolas (ou cinemas). É legal também tentar entender através de Eva onde foi que eles erraram em relação ao filho, mas é aí que eu acho que o livro perde pontos. É louvável  a franqueza da mãe ao afirmar que nem de longe sentiu o afeto tanto proclamado por "mãemães" do mundo inteiro. Mas também percebemos que o menino demonstrou aversão à mãe logo nos primeiros segundos de vida. É uma solução muito simplória para tentar justificar a personalidade do menino ao longo dos anos. Já li a respeito de pequenos psicopatas, o que a neurobiologia tenta descobrir mas eu entendi que Kevin não se trata de um pequeno psicopata. Antes de tudo, ele é um irritante. Pior que ele, só o pai. É um personagem plano, no qual acredita cegamente  na conversinha furada do filho e acha que todos estão perseguindo Kevin. Há muitos momentos em que eu simplesmente queria dar uns berros com esse cara, puxa, que tapado! Daí eu senti que o autor não nos dava essa liberdade para refletirmos sobre as decisões dos personagens. A palavra era da Eva e ela dava as cartas. Por outro lado eu ficava fascinada por Eva e seu relacionamento com o filho. Minhas partes favoritas eram o diálogos; era como viver a angústia daquela mulher. Interessante o modo como ela contava os fatos: geralmente iniciava com acontecimentos recentes e logo introduzia os flashbacks. O que fica difícil de compreender  é essa natureza maligna do garoto. Como citei anteriormente, as personagens são planas, não há uma grande reviravolta em seus sentimentos ou ações, fica tudo muito previsível. Mas no capítulo final o autor tentou dar uma guinada que, ao meu ver, não foi muito bem sucedida. É um tanto bobo como é feita a revelação do destino de dois personagens, juro que eu tive de reler o capítulo (acreditei piamente que o problema era desatenção minha!). Mas não, estava lá uma revelação que não me comoveu muito. Outro ponto que poderia ter mais destaque seria a facilidade que os estado unidenses tem acesso às armas de fogo. Algo foi comentado num diálogo, mas nada que chame tanto a atenção. 

Eu recomendo o livro, por isso resolvi aqui não reproduzir nenhuma passagem do livro, isto é, descrever palavra por palavra de alguns fatos pois isso tiraria um pouco da surpresa em relação ao personagem título. Apesar da escolha do autor do livro em ter um único foco narrativo, o da Eva, há ainda sim aquela vontade de saber o que mais aquela mãe irá vivenciar. Agora houve uma situação engraçada: terminada a leitura eu fui finalmente ler a respeito de Lionel Shriver e eu quase caí da cadeira ao ver que Lionel é uma mulher!!!!


Soundtrack

Músicas que vieram a minha mente ao ler Precisamos falar sobre o Kevin:






sábado, 15 de dezembro de 2012

É tarde demais


Eu, Christiane F.,13 anos,drogada e prostituída foi um livro que eu adquiri em 2003. Só sei disso porque eu anotei na primeira página um "Eu, Silvia Pupo, 17 anos (e o restante eu tinha apagado, mas com certeza era algum trocadilho fuleiro). Ele fez parte de um trabalho multidisciplinar, fazendo parte da grade as matérias de língua portuguesa e sociologia. Eu me lembro de ficar com muito orgulho da minha nota na parte relacionada à sociologia: NOVE. O professor Vitor passou uma prova com cinco questões, cada uma valendo dois pontos. Todos os alunos receberam um folha resposta mas eu precisei de mais uma, devido ao tamanho das minhas respostas. No fim precisei de duas folhas que foram devidamente preenchidas frente e verso ( e vale ressaltar que minha letra era miudinha). Contudo, eu respondera apenas quatro questões; justamente a primeira, que pedia para situar o momento histórico da trama e relacioná-lo com a situação dos jovens drogados de Berlim, não respondi. Confesso que não tinha me atentado a isso e depois de reler o livro bateu uma baita vergonha porque estava ali escancarado para quem pudesse ler. Bom, eu nem tentei encher linguiça e entreguei a prova sem responder essa questão. E eu fui tão bem no meu raciocínio que acabei levando um ponto extra, então no lugar de oito, acabei recebendo um nove. Comemorei como se tivesse tirado um dez.

Eu nunca tinha ouvido falar na história desse rapariga. Na primeira vez em que li eu fiquei com aquela sensação de querer saber logo o desfecho, mas ao mesmo tempo ficava triste por terminar a leitura. Estou dando uma olhada nele agora...Ele faz parte da 41ª edição, publicado pela editora Bertrand Brasil. Eu costumo chamá-lo de "o livro rubro negro", por estampar a foto da Chris F (intimidade adquirida) numa cor vermelha, com o fundo preto. As laterais estão amareladas dando um aspecto velho (bom, já faz nove anos em que o mantinha guardado no armário). É hora de eu pegar um metrô para Berlim, meados dos anos 70 e descer na estação Zoo. 

Sobre o livro


Antes de mais nada, nesta parte pode acontecer de eu soltar alguns spoilers, mas não são propositais. É meio impossível comentar sobre o livro sem que algo seja revelado. Mas fiquem tranquilos que não reproduzirei trecho por trecho da obra. 

O livro é o depoimento de Chris F. dado a Kai Hermann e Horst Riech. O que era pra ser duas horas de entrevista acabou tornando-se dois meses. Como a história é narrada em primeira pessoa (há alguns capítulos destinados a depoimentos da mãe e de especialistas), fica mais fácil sentir se próximo da Chris F. Até os 6 anos a menina morava na fazenda e sua vida começou a se desestruturar logo que chegaram em Berlim. Ela conta a expectativa de morar em um grande apartamento, enquanto seus pais abriam o próprio negócio, uma agência de matrimônios. Porém eles não foram bem sucedidos e se mudaram para um apartamento menor, no Conjunto Gropious. Pelo que entendi, era quase um cortiço vertical. E embora a família dela não gozasse de uma boa situação financeira, os pais dela tratavam com certo ar de inferioridade os operários que também viviam no conjunto. Richard, o pai da garota, era presunçoso e violento. O avô dele tinha muito dinheiro e era proprietário de uma gráfica e de um jornal mas após a guerra ele foi expropriado pela RDA (aaaaah aí estava o período histórico, Alemanha dividida em duas, como eu não lembrei isso na hora da prova???!!!). Assim a família dele jogou em seus ombros toda a responsabilidade de recuperar o legado do avô, ou pelo menos, voltar a ter a vida confortável de outrora. Ele se tornou um verdadeiro frustrado, violento e bêbado. Ele não se conformava em ter uma vida que "não correspondia ao seu nível'. Deste modo, ele coloca a culpa na família pelo seu fracasso. Richard chegou ao ponto de mentir sobre sua vida para os amigos, nunca apresentando Chris F. e sua irmã como filhas, mas como sobrinhas. A mãe de Chris F. era uma mulher dividida entre as funções de progenitora, esposa e trabalhadora. Ela mesmo reconhece que não tinha muito tempo para as filhas e tentava compensar sua ausência com pequenos mimos. Em comum com o marido, ela não tomou as rédeas de sua vida perante a família. A única maneira que ela viu para ser "livre' foi engravidando do então namorado. Ela também era alvo dos sopapos do marido. Com um histórico familiar assim, a Chris F já se torna uma pessoa digna de pena. Mas, isso pra mim não é o motivo principal para entrar nas drogas. O Conjunto Gropius era uma verdadeia prisão. Tudo o que ela tinha na vida na fazenda (brincadeiras ao ar livre, contato com outras crianças, etc) não faziam mais parte de sua nova rotina em Berlim. Hoje diríamos que ela sofreu bullying. Um local planejado para ser modelo de moradia, o Conjunto Gropius não possuía nenhuma área de recreação infantil, havia diversas placas de "proibido". Qualquer diversão que as crianças encontrassem era imediatamente proibida no dia seguinte (será que foi aí que a JK Rowling se inspirou para criar a Dolores Umbridge?). Segundo ela, parecia que as crianças não tinham o direito de imaginar, de criar. O Gropius era um local que afirmava prezar pela segurança e bem estar dos seus moradores, mas não dava a mínima voz para seus moradores, afim de saber se eles estavam satisfeitos com aquilo. 

Chris F passou a frequentar o Centro de Jovens que havia no conjunto; o que passava despercebido pelos moradores era o fato de centro concentrar uma quantidade alta de jovens usuários de droga. Foi lá que Chris F. e sua amiga Kessi fumaram haxixe pela primeira vez. Foi neste local que ela fez sua primeira turma e se sentiu tão feliz por isso. Ela sentia-se especial por considerar parte de um grupo de "pessoas incríveis e superiores aos demais". Fumando haxixe, ela se tornou um deles. Um carinho e amor nunca sentido no ambiente familiar. É nessa parte que eu já começo a puxar o freio e lembro que a história apresenta a visão da protagonista. Será que essa não era uma felicidade idealizada por ela, será mesmo que a turma era aquilo tudo?

Logo somos apresentados ao Sound, a discoteca mais moderna da Europa. Ela sente aquela excitação comum nos adolescentes de conhecer novas pessoas, novos lugares. E sempre ela descreve um amigo novo como uma pessoa incrível e superior aos antigos amigos. O que fica claro é essa síndrome de inferioridade da Chris F. Ela sentia a necessidade de se sentir aceita por todos aquelas que ela julgava "os maiorais, os mais descolados". E mesmo, apesar das brigas e desavenças, ela acreditava que o amor e respeito os unia. Não percebeu (ou isso pode ter ocorrido tempos depois) que era a droga que os unia. Foi no Sound que ela conheceu seu primeiro namorado, Atze e passou a viver em função dele, chegado a mudar seu visual para agradá-lo. No meio disso tudo, ela já tomava Efedrina, Valium e Mandrix. Ela nos conta o seu fora e posteriormente como engata o namoro com outro frequentador do Sound, Detlef. Ao longo do seu depoimento, ela descreve seu relacionamento com Detlef como algo "único, terno e sincero". Novamente eu penso que ela maquiou a realidade. Mas percebi que não precisa ser uma viciada para distorcer sua realidade. Quem aqui nunca viveu de aparências, escondendo o jogo sobre seus problemas de relacionamento. Claro que em se tratando de Chris F e Detlef, a escala era muito maior. Ele começou a se picar primeiro que ela. Pensando que perderia seu amor, a menina foi na onda da heroína, achando que poderia parar no momento em que decidisse. 

Na primeira vez em que li, achei aquilo chocante. Antes nunca tinha lido nada com tantos detalhes e tanta franqueza também. Até mesmo as biografias dos meus ídolos musicais traziam passagens tão brutas quanto a da Chris F. O choque talvez foi maior por se tratar da vida de uma garota que mal tinha completado 14 anos. Eu tinha 17 quando li a história e me senti extremamente feliz em nunca ter pensando em experimentar algo do tipo. A partir do namoro com Detlef, começa a queda vertiginosa de Chris F nas drogas, passando por situações degradantes, como a prostituição. Engraçado que ao ler os relatos, ficava cada vez mais em dúvida sobre o amor de Detlef por ela. 

Relendo o livro, eu dei mais atenção como o governo levava essa situação. Não que a nossa protagonista nunca tenha tentado parar com o vício; mas as instituições não pareciam preparadas para aquela contigente de jovens (verdadeiras crianças) cada vez mais debilitadas pelo uso de drogas como a heroína. Havia também muitas clínicas que visavam mais o lucro do que a reabilitação dos pacientes. 

Uma Alemanha dividia ao meio, o número de jovens frustrados quanto ao seu futuro, escolas estimulando a competição entre seus alunos, Chris F e sua turma de viciados sonhando com uma vida burguesa (embora demonstrassem desprezo por eles, os burgueses), um número crescente de jovens se prostituindo, outros tantos morrendo por overdose. Esse é o cenário apresentado no livro. Eu não conheço uma pessoa que não tenha um caso de parente envolvido com drogas. Eu mesma tenho um primo que é viciado. Pior cena do mundo ele aparecer totalmente alterado na festa de casamento do irmão. E a família ainda tenta esconder o sol com a peneira. Mas o problema é que não se pode ir internando a força, deve partir dele a vontade. Aí que mora o problema. Eu, com meus 26 anos, ainda não consigo ter uma opinião formado sobre a questão da droga, se vejo apenas como uma questão de saúde pública ou se opino na questão jurídica. Será mesmo que a descriminalização das drogas diminuiria a violência? Mas isso não diminuiria as complicações do abuso do uso de drogas. Se nossos hospitais não conseguem atender pacientes com uma simples dor de cabeça...E qual seria a graça de eu estar ao lado de pessoas que estariam com o estado alterado por uso de drogas? Ok, já ouvi como resposta que há alimentos que também alteram a percepção das pessoas e que nem por isso estão restringindo a venda de alimentos (e ainda me deram como exemplo o chocolate). Talvez eu esteja fraca com argumentos. Talvez eu seja um reacionária enrustida. Ou eu não consiga hoje ver viciados como vítimas ou pobres coitados. É difícil entender o motivo que leva tanta gente a querer experimentar uma droga. Porque baixa auto-estima, problemas familiares, financeiros e amorosos todo mundo tem. Já me frustrei muito nessa vida e nem por isso recorri a drogas (até mesmo medicamentos). Eu nunca passei por uma situação em que precisava ser aceita e, para tal aceitação, tivesse que fazer algo que ia contra os meus princípios. Embora meus ídolos do rock fossem em sua grande maioria de drogados e muitas de suas composições foram criadas sob o efeito das drogas, eu não me deixei influenciar. Será que tudo isso se resume a ter personalidade? Não, é muito simplório. No meu caso, eu suponho que amo demais o meu corpo para destruí-lo, e não quero apagar da minha memória os meus momentos, sejam eles tristes ou alegres. 

Soundtrack: 

Nos anos 80, o livro foi parar nas salas de cinema. Mas já adianto que é muito, mas bota muito, ruim! Como comentou meu colega André Rosa, "é um filme que não tem o começo". O professor Vitor passou em uma aula, antes da aplicação da prova. Vale muito pela trilha sonora, que ficou na mãos do David Bowie, não por acaso um dos cantores favoritos da Chris F. Segue abaixo duas cenas do filme:

Station to Station (e eu adorei o fato dele ter participado do filme)

Heroes - esse clássico está também na trilha de As vantagens de ser invisível