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terça-feira, 19 de março de 2013

Livremente

No final de semana passado eu aluguei três filmes, dois deles até então inéditos para mim. Antes de escrever sobre eles, quero aproveitar para dar uma pequena observação. A grana está curta, o tempo idem. Tenho uma jornada de trabalho maior do que no meu emprego anterior, porém o salário é menor. Valeu capetalismo! Essa combinação desastrosa me fez abrir mão de conferir os filmes que estão em cartaz. Deixar passar em branco O lado bom da vida, O Mestre, Colegas e Mama. Ouço sussurros de "ah Shil, baixe pela internet". Quem me dera meus amigos, o pc lá de casa morreu e eu me viro acesso a internet nos computadores disponíveis no trabalho e quando vou à biblioteca. Chega a ser desesperadora a ideia de não ir ao cinema, aquele meu momento de puro escapismo, de deixar os problemas lá fora e viver as mais incríveis histórias. Mas ainda existem as locadoras, escolhi três filmes que saíram mais baratos do que uma sessão no Cinemark aos fins de semana. 

O primeiro que vi foi "Sherlock Holmes e o Jogo das Sombras". Era para eu ter visto nas minhas férias do ano passado, mas meu amigo conseguiu me convencer a assistir O Gato de Botas. Sábia escolha, não me arrependo da troca. O longa é a continuação do primeira e bem sucedida aventura do detetive e seu amigo doutor Watson, que já não era aquela obra-prima mas era divertida e com boas cenas de ação. Nessa sequência o diretor Guy Ritchie fez mais do mesmo e nem os talentosos protagonistas Robert Downey Jr (Holmes) e Jude Law (Watson) salvam a película. As cenas de ação são previsíveis e cansativas, vide as Holmes' vision (aqueles momentos em que o detetive antevê os golpes que dará em seus inimigos)  e as piadinhas sobre o relacionamento entre Holmes e Watson já deram o que tinham de dar! Considerei o vilão apático e os coadjuvantes pouco acrescentaram à trama. O final foi tão anticlímax, que eu até levei um susto, tipo "já acabou, é isso?". Que o Robert é um p*ta ator isso eu não nego mas ele parece fazer o mesmo personagem (*cof cof Tony Stark, cof cof!!). Gostaria muito que ele realizasse outros projetos só para apresentar à essa nova leva de fãs que ele também é um ator dramático e não vive apenas de sucessos blockbusters!




O domingo eu reservei para rever Sangue Negro. Cada vez que eu o assisto, mais eu fico impressionada com o magnetismo que ele me causa. Não é uma película fácil para os mais jovens e inquietos, pois ela começa com uma sequência de quase quinze minutos sem nenhum diálogo. Ah sim, só para situá-los, Sangue Negro narra a trajetória de Daniel Plainview, de um modesto minerador de prata até virar um poderoso explorador de petróleo no início do século passado. O papel principal caiu nas mãos de Daniel Day-Lewis, em mais um show de atuação. Quando o vejo dentro de um buraco em busca de minério não  me restam dúvidas: ele deve ter passado no mínimo 3 meses aprendendo o ofício para dar autenticidade ao personagem. O trabalho de composição para os seus papéis é um assombro, beirando a perfeição. Incrível como ele consegue criar trejeitos, mudar de sotaque, tudo feito de forma minuciosa. Por isso sou apaixonada por esse homem. Sangue Negro foi lançado em 2007 e no ano seguinte Daniel Day-Lewis foi laureado com sua segunda estatueta de melhor ator (e a terceira veio neste ano por "Lincoln'). 



Nossa, eu já escrevi demais mas tudo isso foi só um aperitivo. A força motora deste texto foi o terceiro filme escolhido por mim, visto na última segunda-feira. O Escafandro e a Borboleta é um filme francês lançado em  2007 e é a adaptação do livro homônimo, escrito por Jean Dominique Bauby. Vencedor de dois Globos de Ouro (melhor direção e melhor filme estrangeiro) e teve quatro indicações ao Oscar. Eu já tinha lido matérias e críticas elogiosas em revistas especializadas e lembro de ter assistido as cerimônias de entrega de prêmios citadas na  frase anterior. Não sei o porquê de ter demorado tanto para vê-lo. Há dois fatos curiosos sobre esse título. Um é que eu  não consigo falar Escafandro logo de primeira, acabo sempre enrolando a língua e sai coisas como escafrando ou escrafrando (até parece um palavrão!). Não tem jeito, eu  tenho de falar devagarinho, O Es-ca-faaaaan-dro e a Borboleta. A outra coisa é que  eu não tinha a menor  ideia do que era um escafandro! Por um certo momento eu achei que fosse um inseto (por  culpada borboleta que o acompanha no título). Só depois de assistir ao filme que saquei do que se trata:


Bom, vamos à história. O livro que inspirou o filme é a autobiografia de  Jean Dominique Bauby, jornalista e editor da revista Elle francesa. Aos 43 anos ele sofre um acidente vascular cerebral (o famoso AVC) e fica em coma por 20 dias. Ao acordar, percebe que ele perdeu sua capacidade de se movimentar e falar. Ele só conseguia piscar o seu olho esquerdo. Os médicos explicam que isso é conhecido como a Síndrome de Locked-in (ou Síndrome de Encarceramento). A fonoaudióloga dele desenvolveu um método para que ele pudesse se comunicar: as letras do alfabeto eram ditadas lentamente e ele piscava a pálpebra quando a letra que queria era falada. No início era bem cansativo, imaginem só ele ditar letra por letra. Mas com o tempo as assistentes e médicos já poderiam deduzir quais palavras ele queria dizer, o que tornava o processo todo mais rápido.



Eu nunca tinha visto uma obra do diretor Julian Schnabel, tão pouco conhecia os atores desta produção. A única pessoa conhecida por mim era o diretor de fotografia Janusz Kamiński. Uau Shil, como você se prende aos detalhes técnicos! Nem tanto meus caros, nem tanto. Não tenho tal conhecimento para avaliar se a fotografia de um filme está adequada; eu uso mais a sensação que ela causa. E sim, eu gosto de ler as fichas técnicas dos filmes, por isso eu sei q Janusz Kamiński já trabalhou com o Steven Spielberg desde A Lista de Schindler. Mesmo que você não seja um expert em fotografia cinematográfica logo perceberá que em O Escafandro... há um quê de diferente. Quando o Jean Do desperta do coma nós temos a sua visão, ou melhor explicando, a sua perspectiva. É como se a câmera fosse o olhar dele  (semelhante ao clipe Smack my Bitch up, do Prodigy). Se o diretor queria nos fazer sentir na pele a situação do Jean, pontos para ele! Era algo que beirava ao claustrofóbico. E é aí que entra o trabalho de Janusz: as imagens ora ficavam desfocadas, ora as luzes pareciam faixas coloridas e distorcidas, a visão por vezes está "torta", fora de enquadramento. Vou tentar exemplificar para vocês. Imagine vocês dormindo num quarto escuro e de repente aquele danado do seu irmão entra e acende a luz inesperadamente. Os olhos ficam incomodados com a luz, né verdade? Irrita que até chega sair algumas lágrimas. Esse é o mundo de Jean. Durante boa parte do filme o rosto dele não é exibido e a curiosidade só aumenta. Durante essa passagem os médicos tentam um tipo de comunicação com o paciente de um modo, digamos, meio desastroso, com muitas conversas cheios de temos técnicos. Até eles estão surpresos com o estado de Jean. O protagonista fala através de sua consciência, com toques de ironias e uma certa amargura.



Essa história tinha tudo para ser piegas e o diretor poderia optar por criar um dramalhão arranca lágrimas. Mas para nossa sorte o filme é francês, logo não tivemos aquela previsibilidade hollywoodiana. As belas imagens mesclando passado e presente, a narrativa peculiar de Jean e a sensibilidade alcançada pelo diretor são os grandes trunfos e o maior premiado somos nós, os expectadores. Eu não senti dó, nem chorei rios de lágrimas, mas o filme me proporcionou momentos de reflexão. 

Eu, ou melhor, todos nós não temos controle completo sobre nosso destino. Não saberemos se acordaremos amanhã. se conseguiremos evitar um queda da escada ou se corremos o risco de ser assaltados perto de casa. Hoje, eu estou saudável, sofrendo apenas de estresse mas eu ando, falo, ouço, vejo e sinto. Que desespero seria ser privada dos meus sentidos! E num país onde "pessoas não-deficientes" já não usufruem de conforto em locais públicos e nos meios de transportes, imaginem para alguém que só se comunicaria através de uma piscadela? Outra coisa que fiquei matutando: eu não preciso passar por algum acidente, eu já me encontro encarcerada dentro de mim. Eu não posso mais ir aos lugares que tanto aprecio, não tomo mais minhas próprias decisões. Estou presa numa teia, uma mosca toda enrolada num emaranhado de fios grudentos pronta para ser devorada. Como mencionei no início do texto, eu estou trabalhando e o serviço é muito, mas muito exaustivo, daquele que suga o seu ânimo. Já tive oportunidade de trabalhar em outros call centers mas esse é de longe o mais bagunçado. Acordo cinco e meia  da manhã para chegar até o meu destino às oito e meia. E só saio de lá às cinco e quarenta e duas da tarde!!!!! Qualquer compromisso ou assunto que eu tenha de resolver tenho que sacrificar o meu horário de almoço. Não sobra tempo para eu pensar, é passar todas essas horas focada em procedimentos e mais procedimentos. Do que me adianta ter o sábado e domingo como folgas? Saudade das escalas 6x1, pelo menos tinha vida social. Sabe aquela famosa cena do Chaplin em Tempos Modernos? O operário tornando um alienado no meio da produção de uma fábrica até que ele chega a ser "engolido" pelas engrenagens? É assim que me sinto: abaixe a cabeça e obedeça! Toda a minha criatividade fica fervilhando no meu cérebro. Como não posso encaminhar meus rascunhos para meu e-mail pessoal, eu tenho que memorizar todo o esboço dos textos. Lógico que quando chego aqui na biblioteca e coloco a mão na massa muito do que eu pensei eu esqueci e o texto nunca sai do modo como imaginei no princípio. E me perco dentro de mim em pensamentos, com aquela vontade de falar "certas verdades" bem alto, na cara mas que devo engolir a seco. 

Mas eu até que reclamo de barriga cheia. Um homem ditou um livro através do piscar do seu olho esquerdo, imaginem o quanto ele tinha que se concentrar e repassar mentalmente suas histórias. Curiosamente esse é o segundo...para tudo. Um senhor sentou no computador ao lado e me pediu ajuda para acessar o Orkut. Ele apresenta dificuldade na fala, o rosto levemente paralisado no lado esquerdo. Sim, agora sim eu me emocionei. Conversei aqui uns 15 minutos, realmente ele sofreu um AVC há 11 anos. O mais interessante ele ter falado que Deus quis que esse encontro acontecesse. Segundo ele nada é por acaso, não é mesmo? Eu educadamente respondo que sou ateia e que considero uma feliz coincidência. E fiquei mais encorajada em não ficar mais presa dentro da minha mente. Livremente...


Soundtrack










quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

MGM, presta atenção aqui...

Se há uma culpada por essa minha obsessão por filmes sem sombra de dúvidas é a minha mãe. Seu programa favorito na juventude era ir aos cinemas do bairro, como o Val Paraíso e o Cine Tucuruvi (infelizmente eles não existem mais) para curtir uma boa sessão, comendo amendoim e bebericando um refrigerante Crush. Vocês devem imaginar mamãe como aqueles críticos sérios, admiradores de cinema cabeça europeu,sentada numa poltrona com uma taça de vinho tinto seco na mão. Ledo engano. Mamis é das massas e encara o cinema com muito mais paixão em vez de se prender a detalhes técnicos. Até hoje ele gosta de ver filmes de caubóis, seja com John Wayne ou Clint Eastwood,mergulhou nos olhos azuis piscinas de Paul Newman, pagou um pau gostoso para o James Dean e suspirou de amores para Rock Hudson, mesmo após saber que ele era gay. 



Mas há um gênero que minha mãe adora: os filmes épicos! Spartacus, Os 10 Mandamentos, A Queda do Império Romano, Laurence da Arábia, Sissi (tá, esse é mais histórico do propriamente um épico, mas ela também adora), Gladiador, Cruzadas... talvez porque todos esses filmes épicos despertem esse lado aventureiro dentro de nós. Assistimos a heróis em busca de justiça, passando por muitas provações, viajando ao redor do mundo, protegendo as pessoas. E no fim alcançam a glória. E as cenas tão grandiosas nos despertam as mais diversas sensações, desde euforia, tensão, adrenalina. De todos os filmes que assisti por influência da minha mãe, o meu favorito é Ben-Hur.



Essa belezinha foi filmada em 1959 por William Wyler e foi ganhadora de 11 Oscar's (só Titanic e O Senhor dos Anéis- O Retorno do Rei alcançaram esse número) e conta a história de Judah Ben-Hur (Charlton Heston), um mercador e princípe judeu, e Messala (Stephen Boyd), um soldado romano amigo de infância de Ben-Hur. Messala é escolhido pelo governador para ser o oficial comandante de uma das legiões romanas e  com o passar do tempo as visões dos dois amigos divergem e eles acabam por se separar. Um episódio faz com que Messala condene Ben-Hur a viver como escravo, mesmo sabendo da inocência do ex-amigo. A trama se desenvolve paralelamente a história de Jesus Cristo, que tem aparições á la Forrest Gump (não, vocês não verão Jesus correndo dos romanos e o povo gritando "Run Jesus, run"). A película tem cerca de 3 horas de duração (ou mais, sei lá, gosto tanto que nem parece tanto tempo assim) e o que eu escrevi aqui é só a ponta do iceberg. Traições, conspirações, mensagens religiosas, uma boa dose de drama e redenção fazem parte da fórmula do sucesso estrondoso da história.O filme traz muitas reviravoltas e pode se afirmar que é superlativo em tudo: grandes cenários, longas sequências de lutas, mas um bom filme que se preze também conta com ótimas atuações. Não posso deixar citar que Ben-Hur tem A MELHOR CENA DE CORRIDA EVER DA HISTÓRIA DO CINEMA (prêmio concebido e concedido por mim, ^_^). São as 9 voltas mais tensas e eletrizantes que eu já vi. E o mais bacana: é real! Sem trilha sonora, só o barulho dos cascos dos cavalos e os estalar dos chicotes. Dou muito mais valor para filmes antigos por conta da criatividade dos diretores e todos os envolvidos para filmar uma cena sem a tecnologia que temos hoje. Obviamente não há nenhuma cena computadorizada e é aí que reside a magia do cinema, pois os diretores tiveram de quebrar a cabeça para criar algo que pudesse reproduzir tudo o que estava descrito no roteiro. Eu gosto de filmes feitos "na unha", isto é, com soluções criativas para cenas aparentemente impossíveis de serem gravadas. Nolan é um dos poucos diretores que ao gravar cenas de ação abre a mão de usar o "fundo verde". A primeira vez que eu vi Ben-Hur eu deveria ter no máximo 5 anos e lembro me muito bem de chamá-lo de Senna durante a cena da corrida.



A última vez que eu assisti ao filme foi em 15/12/2012, no canal TCM e depois disso eu fiquei obcecada por uma ideia: e se fizessem o remake de Ben-Hur? Eu escrevi isso no Facebook: "Sábado passado eu assisti ao filme Ben-Hur. E então eu tive um devaneio...E se Hollywood tivesse a audácia de refilmá-lo? É um clássico, seria heresia total realizar esse projeto, mas eu sinto tanta falta de bons filmes épicos e quando eu escrevo "filmes épicos", tô falando dos bons mesmo, e não aquelas coisas carnavalescas de 300 e Imortais. Eu escolheria o Tom Hiddleston para ser o Judah Ben-Hur, Michael Fassbender seria o Messala, Dakota Fanning para Tirza, Hellen Mirren pra Miriam e pouts, esqueci como escreve o sobrenome dela, a Keira "bláblá" dos Piratas do Caribe."


Até aí, tudo normal, né? Porém ao acessar o site Cinema com Rapadura no dia 16/01/2013, eu me deparei com uma notícia bombástica: o estúdio MGM planeja refilmar Ben-Hur! Quando li isso o meu cérebro explodiu de tal modo que não consigo descrever. Só depois de passados alguns minutos (que pareciam horas) é que cheguei a conclusão: tem algum funcionário da MGM lendo os meus posts do Facebook!!! Óbvio, senhoras e senhores! Agora vejam se o meu elenco não é dos melhores:


Charlton Heston, o Ben Hur original

Para Ben-Hur, eu escolhi o Loki  Tom Hiddleston, por acreditar que ele traria o mesmo carisma que Charlton Heston deu ao personagem. 


Ator muito versátil, faria muito bem o protagonista!


Escolhi Micheal Fassbender para ser o vilão Messala. Stephen Boyd foi o dono do papel na versão de 59 e curiosamente os dois atores tem ascendência germânica.

Stephen Boyd


Fassbender, essa cara sabe fazer um vilão como ninguém

Esther foi interpretada pela bela Haya Harareet e eu sempre cogitei a Keira Knightley. Elas até que são parecidas:





A irmã mais nova do protagonista, Tirzah cairia muito bem pra Dakota Fanning. Ela já tem uma cara de sofrida mesmo, rsrsrs. A Tirzah foi interpretada pela Cathy O'Donnel.




Olha, não é querendo me gabar, mas meu elenco não é de se jogar fora! O problema será controlar tantos egos!









quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Sessões e sensações






"Moça, pode parecer redundante mas qual é a próxima sessão para As Sessões?"
"Próxima sessão  às 19h40." 

Ufa, eu pensei, consegui. Afinal eu trabalho das 10h às 18h12 e fica praticamente impossível realizar minhas fugas cinematográficas semanais. Sim, restam-me os finais de semanas porem dói mais no bolso devido aos preços mais caros e eu não conto  com a vantagem de pagar meia entrada. Além disso, "As Sessões" estreou na ultima sexta-feira em pouquíssimas salas, o que é uma pena. Por isso eu tive que agarrar a oportunidade raríssima de encontrar um cinema próximo ao meu trabalho, num horário acessível para não voltar para casa muito tarde. 

"As Sessões" conta a história real de Mark O'Brien , vitima de poliomelite que contratou uma terapeuta para perder a virgindade. Ah, vale lembrar que ele já estava com 38 anos. O roteiro do filme foi adaptado de um artigo de Mark para uma revista, contando como ele contratou a terapeuta sexual Cheryl Cohen Greene. Nos papéis principais estão John Hawkes e Helen Hunt. A atriz já é uma velha conhecida minha pois eu acompanho a carreira dela desde a série Mad About You e em filmes como "Twister", "Corrente do Bem" e "Melhor é Impossível" (o meu favorito, no qual ela ganhou o Oscar de melhor atriz). E o John Hawkes, bem nunca fomos apresentados antes. Aliás, li que ele fez uma pequena participação em "Lincoln" mas juro que não estou lembrando da cara dele no filme, passou totalmente despercebido. Em "As Sessões" o John passa o filme inteiro deitado numa maca ou dentro de um pulmão de aço (aparelho que auxilia na respiração) e ele não mexe nenhuma parte do corpo, com exceção e lógico dos músculos faciais.   



Mark é escritor e poeta, formado em Letras (*já ganhou minha simpatia) e vive apenas na companhia de seus fieis cuidadores. Engraçado notar como o ator parece ser bem mais novo do que os seus 53 anos (eu também "sofro" desse mal, hihihi) e o trabalho corporal dele ficou excelente. Pensam que e fácil atuar o tempo todo deitado? Mas não era apenas isso, era preciso ficar com o corpo todo retorcido e para isso ele ficou com uma bola de tênis nas costas durante as filmagens. Imaginem o incômodo. Esqueci de citar que Mark tinha como amigo e confidente o padre Brendan (Willian H. Macy), uma figura muito carismática e compreensiva. Ele foi um dos incentivadores de Mark para ele perder o cabaço a virgindade. E é aí que chegamos a Cheryl. Ela foi interpretada com tanta dignidade e competência que eu saí do cinema torcendo para que a Helen ganhe o Oscar de melhor atriz coadjuvante (apesar de ser quase certa a vitoria de Anne Hathaway).



O mais legal de "As Sessões", e talvez foi o fator cativante, é o fato dele ser um filme leve mesmo com um tema que apresente uma situação, bem digamos, constrangedora. O grande acerto foi tratar a adaptação como um filme de relacionamento e não uma biografia. Uma comedia bege , isté clean, elegante, ao contrário das comédias que carregam nas tintas, pois ela não se apóia em cenas esdruxulas, diálogos non-sense, esteriótipos e gags. Mark O'Brien não se faz de pobre coitado e apresenta um grande senso de auto-ironia. Disso eu entendo,visto que e antológica minha piada sobre os meus peitinhos. Explicando: minhas duas avós tiveram câncer de mama, ambas quando tinham mais de 60 anos. A minha vó paterna, a vó Lindinalva, venceu a doença mas a vó Luiza sucumbiu (tadinha, já tinha 90 anos). As chances de eu desenvolver são altíssimas mas como eu sempre digo, "meus peitos são tão pequenos, mas tão pequenos, que eu terei uma  mama no câncer e não um câncer na mama!"

Eu tive a mesma sensação de quando assisti "Um Divã para Dois", estrelado pela Meryl Streep e  Tommy Lee Jones. Não por acaso, trata-se também de uma comédia adulta com um enredo semelhante: um casal procura um terapeuta para melhorar a rotina sexual. "As Sessões" tem como outro trunfo os ótimos diálogos que arrancam o riso dos espectadores, da mesma forma que consegue emocionar sem ser piegas. Até mesmo as cenas entre a terapeuta e seu paciente durante as sessões não tem nenhum mal gosto. A nudez de Helen não é gratuita, vemos uma mulher madura, sem interferências de cirurgias plásticas e atuando com uma desenvoltura impar. Foi muito interessante ver o tema sexo sobre a ótica de uma pessoa que acreditamos ser  "um pobre coitado" ou "incapaz". Nós enterramos qualquer pessoa com necessidades especias, lançamos um olhar de dó, como se a pessoa definhasse em praça publica. Elas não se tornam inválidas, elas tem  sonhos, desejos e qualquer tipo de sentimento. As salas de cinemas são um exemplo dessa segregação, pois os cadeirantes só tem espaços na frente da sala - um péssimo lugar, diga-se de passagem. Em entrevista concedida para revista Preview, John Hawkes afirmou que "Fiquei mais atento consciente de um segmento da sociedade a que costumamos não prestar atenção. Quero dizer: "Eu vejo você". Espero que o filme tenha o mesmo efeito no público". 



Sim John, acho que vocês conseguiram.



sábado, 16 de fevereiro de 2013

Arte de viver

Em 1999, o grupo de rock australiano silverchair lançou seu terceiro álbum, Neon Ballroom. Sucesso de público e crítica, o disco confirmava o amadurecimento de seus integrantes, um trio formado por Daniel Johns (vocal e guitarra), Chris Joannou (baixo) e Ben Gillies (bateria), que no início da carreira era chamados de maneira jocosa de "Nirvana de pijamas". O quarto último single escolhido por eles, "Emotion Sickness", é o ponto de partida para esse texto. 


Essa canção conta com a participação do pianista australiano David Helfgott, cuja história virou uma ótima cinebiografia. Dirigido por Scott Hicks e lançado em 1996, o filmes Shine-Brilhante é estrelado por Noah Taylor (na primeira fase) e Geoffrey Rush (na segunda). E lá vamos nós com minhas histórias de "uma coisa leva a outra" ( o título desse texto poderia ser "De silverchair a David Helfgott"). Eu não me contento com a superfície, quanto mais eu puder saber sobre as influências das minhas bandas favoritas, filmes e livros, mais satisfeita eu fico. É um prazer que eu guardo só pra mim ( e agora divido com vocês). Há certas pessoas que não vêem graça nas coisas que eu gosto, assim eu fico denominada "a diferente". Eles preferem aquele entretenimento drive thru: viu, pegou,experimentou e esqueceu. Não entra na minha cabeça tal atitude. Cada experiência fica guardada na minha memória afetiva e nunca perco a oportunidade de rever,rever,rever, over and over again. Olha lá eu mudando os rumos do texto. Voltemos a proposta inicial. 




Apesar de eu conhecer a história da colaboração de David Helfgott com o silverchair há 14 anos, eu só fui assistir Shine domingo passado!!! Sim, aqui em casa há o dvd do filme e o mais curioso: ele não me pertence! Ele é da minha irmã mais velha, a Márcia. Questionei o motivo dela tê-lo comprado e sua resposta foi de que a doutora Isabel (a psicóloga dela) sugeriu esse filme para a terapia. Lendo a sinopse do filme dá para entender a escolha: a trama joga os holofotes na conturbada relação entre pai e filho. O pai é um opressor, um tanto quanto manipulador e que projetava no filho tudo aquilo que ele queria ser mas não conseguiu. Considerava-se um homem forte, contrastando com a aparência frágil e mirradinha do seu filho mais velho. Ele encarregava-se de ensinar David a tocar piano desde muito cedo,tornando o menino um prodígio. Ele rompeu aquela barreira de pai incentivador para tornar-se um verdadeiro controlador. 

Confesso que ao ler o resumo do filme na contra-capa do dvd eu imaginei um filme com cenas fortes, no sentido de serem violentas, mas não é bem assim. O diretor foi bem sutil, usando mais da violência psicológica do que violência física, além de gestos e expressões dos atores falarem mais do que qualquer diálogo. São atuações sucintas, pois cada ator sabia o momento certo de brilhar. E claro, como o protagonista toca piano, a trilha sonora é puro deleite. 



Vale ressaltar que Geoffrey Rush não usou nenhum dublê, ele mesmo tocou em cena. Mais do que merecido o prêmio de Oscar de melhor ator pelo papel. Se vocês não estão ligando o nome a pessoa, Geoffrey faz o Capitão Barbossa na franquia "Piratas do Caribe" e também está "O Discurso do Rei". Outra coisa boa foi eu ter redescoberto o Noah Taylor. Enquanto eu assistia ao filme, ficava esse mantra na minha cabeça, "eu já vi esse rosto,já vi esse rosto..."e záz, era verdade! Ele foi o pai do Charlie em "A Fantástica Fábrica de Chocolate" do Tim Burton, participou de "Quase Famosos" (outro filme típico da Shil). O rosto dele é de uma fragilidade impressionante, não aparentando ter 27 anos (na época em que o filme foi lançado). Ah, esqueci de mencionar: David é louco. No sentindo literal mesmo, pois a pressão do pai e sua obsessão pelo piano o enlouqueceu. No filme não fica muito bem claro de qual doença ele sofria, mas posso garantir que o Noah fez de um modo muito competente, sem carregar nas tintas. Nada de estilização da loucura. O vídeo acima deste parágrafo contem minha cena preferida, definitivamente mergulhei no filme durante sua exibição. 

E vejam só como o mundo é realmente pequeno. O Noah aparece em clipes do Nick Cave e do Blur, artistas que não saem do meu playlist. Definitivamente esse negócio de uma "uma coisa leve a outra" vai me enlouquecer.

vou confessar que já ensaiei os passinhos dessa dança, em frente ao espelho


Galeria de fotos:


Esse é o David, simpático não?

Geoffrey em cena

eu acho essa capa tão simples, mas representa tão bem a sensação de liberdade!


terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

A minha versão era melhor

Como muitos já devem ter percebido, eu amo o Red Hot Chili Peppers! Se ainda não perceberam, então vocês só curtiram meus textos sem prestar muita atenção, rs. Enfim, eu posso afirmar que entre o final dos anos 90 e até a metade dos anos 2000 os Chili Peppers alcançaram seu segundo auge em popularidade, pois tanto a crítica especializada em música quanto os fãs aprovaram os álbuns lançados naquele período, Californication e By the Way. A maré estava tão boa para o grupo californiano que, não satisfeitos em fazer música boa, resolveram caprichar nos videoclipes. Três deles chamam muito a minha atenção: Otherside, Californication e  By the Way. Todos foram dirigidos pela dupla Jonathan Dayton e Valerie Faris (que depois dirigiram o filme Pequena Miss Sunshine). E vale lembrar que esses clipes batiam o ponto em canais ou programas voltados ao videoclipe. 

Otherside é totalmente inspirado no cinema expressionista alemão, semelhante ao estilo gótico do filme O Cabinete do Doutor Caligari. Além disso, ele apresenta elementos de outras vanguardas européias, como o cubismo e o surrealismo. Acho super digno e criativo os "instrumentos" dos integrantes terem virados objetos de cena: a guitarra do John virou uma simples corda, Flea equilibra-se em fios de um poste e o Chad tem como bateria um relógio. Bom, eu acredito que o enredo do clipe lembre um pouco a trajetória do John, um rapaz que é levado para um hospital ou clínica e lá, após um período de abstinência ele começa a ter alucinações. Se bem que há uma cena em que o rapaz é sedado e por isso começa a ter alucinações. Huumm, então posso acreditar que ele esteja em um manicômio? Como já citei, os cenários não são meros objetos de decoração, eles ganham vida, como a estrada virando um macabro prédio em questões de segundos. 


(Uma coisa que eu ODIAVA: a galerinha cantando "Hello, hello" em vez de "how long, how long" no refrão!)


O clipe seguinte veio com uma pegada totalmente diferente, toda tecnológica. Californication era um game que eu gostaria muito que existisse. Cada integrante tinha o seu avatar no jogo e cumpria missões pela Califórnia. É um clipe cheio de detalhes, ele é daqueles que devem ser pausados a cada segundo e notar as referências (só no estúdio de Hollywood vemos Leonardo da Vinci, bastidores de um soft porn, carro de James Bond, etc). A música é uma crítica um tanto quanto melancólica para a Califórnia, com seus excessos e extravagâncias, influência de todo um mercado fonográfico e cinematográfico. Eu odiava quando "pseudos fãs" achavam que era uma canção de amor, só por ela ser uma canção lenta, tipo balada. Aff...



Por fim, a trinca fecha com By the Way, primeira faixa do álbum homônimo. Eu não acho assim o supra sumo dos videoclipes, mas me chamou a atenção que os diretores novamente foram beber na fonte cinematográfica, mas não precisaram pegar uma referência antiga. O clipe é inspirado numa sequência do filme Amores Brutos (Amores Perros), do cineasta Alejandro Gonzáles Iñarritu. Eu só soube disso quando o Flea explicou no making of exibido pela MTV. 






Bom, todos esses clipes são bacanas e é legal perceber que o artista não se preocupou em apenas vender a imagem da banda e sua música de trabalho. Aqui são exemplos bem sucedidos de boas ideias e, porque não, homenagens a tantos outros artistas que de uma forma ou outra inspiraram o grupo e/ou os diretores. 

Agora eu tenho uma história curiosa sobre o clipe que segue abaixo:



Vou fazer uma pequeno "recaptula": comecei a ser fã do RHCP em 1998 e depois do lançamento do Californication eu sofri uma overdose pepperística! Mas lembrem-se, toda minha fonte de informação era a MTV e a 89-A rádio rock. Não tínhamos ainda o Google e Youtube para sanar nossa sede de "sabedoria de boteco" e ver clipes a qualquer hora do dia. Tudo o que eu sabia a respeito dessa música era que ela fazia parte de trilha sonora de um filme, "The Coneheads". E não é que tem mesmo um cabeça de cone no clipe, sendo uma espécie de bala-humana. Bom, nem mesmo procurando em sebos as edições mais antigas da SET (revista sobre cinema) eu descobri o nome desse filme em português. Não passava no Supercine,Tela de Sucessos ou Corujão...Caramba, que raios de filme é esse? Porque, para um videoclipe tão lindo como esse, o filme deveria ser tão bom quanto. Soul to Squeeze é meu clipe predileto, junto com Otherside. Ambos tem uma pegada filme europeu - ah, sei lá, sempre achei a fotografia desse filme linda. Parece uma película antiga, com elementos cênicos perfeitos, tornando Anthony, Flea e o Chad verdadeiros integrantes de uma trupe de circo. É tudo muito crível, esse circo itinerante, os bastidores do espetáculo, aquela ideia de que todos que ali trabalhavam formavam uma grande família (incluindo os animais). Que filme maravilhoso ele seria! Eu até já tinha criado um filme à parte, me baseando nos elementos do clipe: o rapaz cabeça de cone nasceu com essa anomalia, fora abandonado pelos pais e acaba sendo adotado por um velho palhaço. Ele tenta não expô-lo para não ser ridicularizado e o menininho tenta se adaptar a esse mundo, onde ele é "o diferente'. O velho palhaço morre (não sei se de morte morrida ou morte matada) e o jovem cabeça de cone não tem opção: ou ele vai embora ou trabalha pro circo. Quem dá esse ultimato é o dono, o cara que fuma charuto lá no clipe. Ele no início faz o trabalho braçal, como recolher cocô de elefante mas depois o dono inescrupuloso o quer para estrelar o perigoso número do homem bala! Ele tem medo, é claro, mas para não parecer um fracote perante ao seu amor platônico, que é uma bailarina, ele cede a pressão. Bom, meu enredo termina por aí, depois nunca mais parei para incluir outras subtramas e personagens. 

Mas eis que é chegado o momento: eu descobri algo sobre o filme original! Na verdade, descobri praticamente tudo. Engraçado que eu nunca joguei no Google ou no Youtube o nome "The Coneheads", talvez por estar satisfeita com minha história ou então por essa curiosidade ter ficado adormecida. Um belo dia, ouvindo a Kiss FM, meu mundo caiu. Na Kiss há o RockCine, um drops em que o locutor indica um filme e na sequência toca uma música que pertence a trilha sonora. Descobri que a versão em português do filme ficou "Cônicos e Cômicos" (como assim, Brasil?) e é uma comédia estrelada pelo Dan Aykroyd (ator de Meu primeiro amor, Caças Fantasmas, Chaplin, Irmãos Cara de Pau). Ele é um bom comediante, fez parte da turma do Saturday Night Live. Porém quando fui ver o trailer e sinopse de Cônicos e Cômicos eu tive vontade de chorar! Cadê o MEU CIRCO COM ARES EUROPEU? 




Justo eu, que quero a verdade mais do que tudo, que sofro de um sincerocídio irremediável, nunca me senti TÃO FRUSTRADA ao ver a realidade! Bem-vinda à Matrix, Shil. A última vez em que eu me sentira tão mal foi quando descobri que a Vovó Mafalda era um homem! O seu filme europeu, vencedor dos maiores festivais (Oscar, Cannes, Toronto, Sundance, Globo de Ouro, SAG's Awards), se transformou numa comédia qualquer nota e bizarra. A verdade dói e tento negá-la. Esse filme nunca existiu, é um devaneio. Deixe-me encantar pelo meu circo europeu!

♫When I find my peace of mind
I'm gonna keep it until the end of time♫

sábado, 3 de novembro de 2012

As vantagens de ser invisível - parte 1





Reservei o dia de hoje para conferir As vantagens de ser invisível. Na verdade, era para eu ter ido ontem, mas o calor de 36 graus me desanimou. Não funciono bem em altas temperaturas, fico mais lenta do que uma preguiça-gigante. Sem querer querendo essa se tornou a segunda quinta-feria seguida em que eu vou ao cinema. Semana passada eu fui ao Cine Marabá para ver Looper, aquele em que o Joseph Gordon-Levitt faz um assassino profissional encarregado de matar pessoas trazidas do futuro. Até ele se deparar com "o ele do futuro" (feito pelo Bruce  Willis). Uma nota rápida sobre esse filme: ele tinha tudo para ser O filme, daqueles de me fazer gritar QUE FILME FODA. Mas não foi. A primeira metade dele é ótima, com ótima edição, bons ângulos, a atuação do JGL brilhante (confesso que não o tinha visto até então fazendo um "bad guy"). Desde de Inception ele me impressiona em cenas de ação. Mas uma história que tinha tanto potencial tornou-se morna da metade pra frente. Saí do filme com uma sensação de que faltou algo! Enfim, 9,5 pro início e 6 pro final. No sábado vi 007 - Operação Skyfall, que foi satisfatório. Um bom filme de ação, mas ficou aquele gosto de deja vu, porque algumas cenas remetem à Os Vingadores e até Batman- O cavaleiro das trevas! Mas valeu pelo agente Q!!! Sem falar que eu caí no cinema. Ainda bem que a sala ainda não tinha gente e eu tive a proeza de cair quando ainda subia o primeiro degrau! Me joelho está doendo até agora...

Enfim, só fiquei sabendo da existência d'As vantagens de ser invisível após ler uma reportagem na Preview. Não só o enredo me chamou a atenção,mas também a relação de músicas que fazem parte da trilha sonora. Há The Smiths, David Bowie, Sonic Youth, Air Supply, etc.  Esse é o tipo de filme feito sob medida para mim, assim como foram Peixe Grande, 500 dias com ela, Alta Fidelidade, O  Artista e Meia Noite em Paris. A minha ideia era chegar cedo ao cinema. O local escolhido foi PlayArte do Center 3, que na verdade é uma praça de alimentação e um complexo de cinema disfarçado de shopping, porque tem poucas lojas, haha! Mas eu reparei que foi lá, no Center 3, onde eu vi mais filmes até o momento: 6 ( O Artista, Shame, Batman - The Dark Knight Rises, 360, Um divã para 2 e o que dá o título ao post). 

Sexta vez que vou ao Center 3. Tudo para passar pela Paulista!

Quando eu saio do metro e subo as escadas, vejo uma avenida Paulista se preparando para o Natal. Eu fico meio confusa com a aproximação do natal. Para uma ateia não há nada a ser comemorado. E acho tudo tão artificial: as pessoas perdendo tempo em filas nos shoppings só para que seus filhos tirem fotos com um velho barbudo. Ou então gastam todo o décimo terceiro em compras, para depois iniciar o ano com a corda no pescoço. Cristãos criticam ateus por não acreditarmos em deus. Eles nem lembram por qual motivo se comemora o natal. Vai entender...Tinha um Elvis cover se apresentando em frente ao shopping e não sei de onde saía um som de Like a Rolling Stone do Dylan. São Paulo sempre me presenteando. Nossa  saí completamente do assunto, voltemos ao foco. 

São 16h19 e estou escrevendo o rascunho no meu celular. Ele já tá velhinho: a proteção do teclado caiu, a tela de vez em sempre apaga sozinha e às vezes eu não ouço quem está do outro lado da linha (pelo menos tô livre da Samara). Eu tinha chegado e comprado meu ingresso às 15h39 e a sessão só começaria às 17h20. Não tinha levado o livro do George Orwell. Eu poderia atravessar a rua e ir visitar a Livraria Cultura. Isso...mas a preguiça somada com as cólicas que sentia me impediram de levantar a bunda da cadeira. E tem mais: com certeza minha mão coçaria para comprar um livro. E eu já tinha atingido a cota do mês, comprando um livro sobre o David Bowie e outro sobre a música pop no cinema. Deixa eu comer no McDonald's que eu ganho mais peso. Dou uma bizoiada ao meu redor e o andar não está muito cheio. Na mesa localizada a minha frente há dois rapazes conversando. Tô tentando adivinhar se eles são gays. Um deles, o mais branquinho, parece o Fernando. Será que são parentes, por que o Fernando não tem uma cara comum não. Hum, reparando no carinha que está com ele dei o meu veredicto: sim, são gays! Eu poderia pedir pra eles uma folha de caderno emprestada,estou namorando há tempos o caderno de um deles, tem a capa laranja. Meus dedinhos estão doloridos de tanto digitar nesse tecladinho minúsculo. Acabou de passar um velho parecido com o George Lucas. Eu já vi sósias do Morgan Freeman e do Micheal Caine (my cocaine,rs). As horas não passam, ainda são 16h38 e eu estou aqui, invisível, digitando num celular que me acompanha desde 2008, vestindo uma camisa verde com imagens dos posters de filmes do Pedro Almodovar, tão velha que já tem um furo próximo a barra. Meu velho All Star Preto com paetês, não me desfaço porque esse modelo não existe mais. Ele é de 2007. Às vezes eu fico um pouco chateada de não ter uma companhia para essas idas ao cinema. Acontece que sou extremamente chata para escolher filmes. Todos que estão aqui vieram para ver o filme do Gonzaga ou aquela comédia que tem aquele gordo chato histério da Globo. E não entra na minha cabeça a ideia de ver um filme sem pé nem cabeça para pura e simplesmente 'desligar o cérebro e relaxar'. Por mais simplória que seja a história, ela tem que respeitar a inteligência do público. Por isso que sou bem seletiva para ver comédias em geral e filmes de ação. Dificilmente alguém iria comigo para ver O espião que sabia demais ou Cavalo de guerra ("so boring" para alguns) ou ainda Shame. Numa conversa ao final da eleição para o segundo turno eu comentava sobre Bastardos Inglórios e o pessoal que compunha a mesa comigo me olhou de modo estranho e disseram nunca ter ouvido falar desse filme! Bastardos Inglórios!!!! Tarantino!!! Será que não sabem que Kill Bill, Cães de Aluguel, Pulp Fiction são dele????? Pelo menos falassem que era o cara que parece o Samuel Rosa do Skank. Sou eu fanática demais por filmes ou as pessoas que não se interessam em expandir o cérebro com algumas referências que o filme pode lhe oferecer? Quando estou sozinha minha cabeça não consegue relaxar e fico com zilhões de ideias na cabeça. Uma pena que eu não tenha um chip no cérebro para me lembrar de tudo depois. Tem dias que eu sou a minha melhor companhia. Não é fugir de gente chata (como alguns familiares, por exemplo) nem querer achar que meu gosto musical/cinematográfico é melhor do que dos meus amigos. Simplesmente eu senti que o filme que estava prestes a ver era para ser apreciado apenas por mim, sem tem que justificar minhas lágrimas e risos a cada cena. Pois bem são 17h10 e já vou entrar na sala 4!




quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Ela é a fera, ela é a Bela


De todas as princesas Disney, a Bela sempre foi a minha favorita. Não seria exagero afirma que  "A Bela e a Fera" é o desenho mais visto por mim, superando até "O Rei Leão". Infelizmente não tive a chance de assisti-los no cinema. Faço um esforço danado para me lembrar a razão pela qual pedi de presente o VHS d'A Bela e a Fera. Todo esse fascínio começou na época do lançamento da animação, em 1992 (Shilzinha com 6 anos). Logicamente eu não era essa cine-nerd-rock que sou hoje em dia. Mas já tinha bom gosto desde pequena. Juro não me recordar de ser bombardeada por propagandas do filme, mas apenas de uma reportagem do Jornal Hoje. O motivo de A Bela e a Fera chamar tanta atenção foi a sua indicação ao Oscar® de Melhor Filme. Aquilo foi um fato inédito na história da Academy Awards. Anos mais tarde foi criada uma categoria para que as animações concorressem (prêmio de melhor Animação) e o primeiro vencedor foi Shrek, da Dreamworks. Procurando Nemo, Os Incríveis, Happy Feet, Wall•e, Toy Story, Rango foram alguns dos vencedores. Todos eles estão na minha lista de favoritos, mas nada se compara ao frisson que A Bela e a Fera causou na minha infância.

Realmente tô fazendo uma viagem no tempo para me lembrar em qual ocasião eu ganhei de 
presente o VHS. Dia das crianças ou natal? Só sei que fiquei muito orgulhosa. Junto com a fita veio um livro, que basicamente contava a  mesma história. Se eu ia para casa da Li ou pra casa do meu pai, levava juntos o VHS e o livro. Outra oportunidade de assistir ao filme era quando tinha horário político. Sempre eu e o meu sobrinho Thiago (na época com pouco mais de 2 anos) pedíamos pra ver. E o Thi, tadinho, acabava dormindo no meio da exibição e por um bom tempo ficou sem saber o final da história.

Resumindo a história, a Disney fez a seguinte versão: um jovem príncipe vivia em seu castelo (só poderia ser num castelo, né? Imaginou ele vivendo numa casinha de sapê?!), contando apenas com a presença de seus subalternos. Numa noite de tempestade, uma velha mendiga bate a sua porta, pedindo abrigo e comida. Em troca ela oferecia uma rosa. O príncipe ficou horrorizado com a feiura da velha e a expulsou. Mas ela era uma feiticeira e acabou jogando um feitiço no príncipe e em todos os moradores do castelo: ele se transformou numa horrível Fera e os empregados em objetos. Somente se ele aprendesse a amar e fosse retribuído, o feitiço se acabaria. Caso contrário, ele permaneceria Fera para sempre. O filme dá um salto no tempo e conhecemo a jovem Bela, filha única de Maurice, um velho inventor,e que vivia numa vila na França. Ele participará de uma feira de invenções, porém ele acaba se perdendo no caminho e acaba procurando abrigo em um horripilante castelo. Lá acaba tornando se prisioneiro da Fera e cabe a Bela libertar o seu pai, oferecendo-se como prisioneira. Em suma, é isso (confesso que o calor de 36º me impendem de detalhar mais o filme, a preguiça só aumenta e tô quase vendo miragens na minha frente! Vão pro Google!).

No alto dos meus 6 anos o que me chamava atenção era a mensagem de nunca julgar as pessoas pela aparência (muito antes de ver uma animação de um certo ogro verde). Claro que o alívio cômico por parte dos objetos-empregados do castelo e os números musicais me encantavam. Mas conforme eu ia crescendo (entendam: amadurecendo), eu prestava atenção a novas nuances. O diálogo abaixo já nos entrega todo o perfil da personagem:

-Papai, o senhor  me acha estranha?
-Minha filha, estranha? Onde você ouviu uma coisa dessas?
- ah, não sei, é que me sinto tão só, não tenho ninguém pra conversar...
-E o que me diz do Gaston? Ele é um rapaz bonito....
-É, é bonito sim e rude e convencido, não papai, ele não é pra mim.

Logo de cara percebemos que ela tem personalidade. No primeiro musical, os moradores da vila cantam que "O nome dela quer dizer beleza, especial é essa donzela/Mas por tras dessa fachada, ela é muito fechada/Ela é metida a inteligente/ Não se parece com a gente/Se há uma moça diferente é Bela"


Rola uma identificação total agora por notar a paixão da Bela pelos livros e suas visitas a biblioteca. Qualquer semelhança não é mera coincidência. Ela torna-se o oposto do que espera o Gaston. Isso fica mais evidente na cena em que o brutamontes joga o livro da nossa heroína na lama:

-Não é direito uma mulher ler...logo ela começa a ter a ideias, a pensar...
-Ora Gaston, você é um homem muito primitivo...
-Ah, obrigado Bela. 

Em outro momento, ao tentar pedir a mão de Bela em casamento, Gaston mostra qual é o papel da mulher na sua restrita visão de mundo:

-Imagine uma cabaninha rústica, a minha última caça assando, a esposinha massageando meu pés...as crianças correndo pela casa, brincando com os cães. Teremos 6 ou 7 (filhos). 

Mas a Bela sempre deixou claro que quer mais do que a vida do interior. Ela prezava por sua 
liberdade. Tanto que após o fora que ela dá em Gaston, acontece um dos meus momentos favoritos do filme, quando ela sai de casa indignada e cantando:

"Madame Gaston
Casar com ele
Madame Gaston
mas que horror
jamais serei esposa dele
Eu quero mais que a vida do interior
Eu quero viver num mundo bem mais amplo
Com coisas lindas paraver
E o que mais desejo ter
É alguem pra me entender
E é por isso que tenho tantas coisas pra dizer!"

Todas as minhas amigas puxam a sardinha pro lado da Ariel ( a Pequena Sereia). Sim, ambas querem conhecer o mundo, tem sede de conhecimento e aventuras, mas a Ariel está mais para uma adolescente rebelde confrontando as ordens do pai, disposta a mudar sua própria natureza  e abrir a mão de sua voz para conquistar o seu príncipe encantado. A Bela já faz um esforço maior e mais digno: ela troca sua liberdade pela do pai. Ela enfrenta a Fera de igual para igual e num momento de compaixão ajuda a Fera, após ter sido resgatada de um ataque de lobos. É nisso que a Bela ganha pontos. Ela nutre aquilo que podemos chamar de amor por um ser de aparência bestial, não é aquele lance de amor à primeira vista pelo príncipe encantado. Ali, o envolvimento dela com a Fera demonstra carinho e respeito. Mas aí vem um engraçadinho insinuando que rola uma zoofilia na parada! Por favor não destruam minha infância.Hoje eu vejo a Fera como uma representação mais animalesca do ser humano. A sua agressividade, força física, falta de controle. Mesmo assim o amor surge entre os dois. Tanto que uma das cenas mais lindas ( e melancólica) é após o baile, quando a Fera liberta a sua amada para que ela vá buscar o pai perdido na floresta. O verdadeiro amor liberta. O que Gaston queria era ter Bela como mais um de seus troféus. Ele nunca a amou.

"Desde o primeiro dia em que a vi eu disse, não há ninguém igual a ela/eu vi logo 
que ela tinha a beleza igual a minha e por isso eu quero casar com ela"

Gaston a considerava a melhor e para ele nada mais natural que casar com a melhor. Tão narcisista que ele se via ao observar a Bela (eu vi logo que ela tinha a beleza igual a minha). Isso é o desejo, a possessividade. Não é genial observar esses pequenos detalhes em uma animação? É tão rica, mais do que muito filme "sério" lançado atualmente. 


É chegada a minha hora de viver num mundo mais amplo. 




Nota da autora: o título do texto foi tirado da música "Foi ela", de Sergio Sampaio cantada na voz de Silvia Machete

Nota da autora 2: esse texto foi ruminado durante a semana inteira, antes da notícia bombástica da compra da Lucasfilm pela Disney. Portanto a Bela passa a ser a minha segunda princesa Disney favorita. O primeiro lugar sempre será da princesa Léia, porque ela tem o melhor príncipe e o melhor pai!


♫Sugestão de trilha sonora: